"Gracias a la vida", a canção do século.

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Violeta ParraUm representativo grupo de músicos, estudiosos, poetas etc, convocados pela Prefeitura de Santiago do Chile, escolheu a canção "Gracias a la vida", de Violeta Parra com a melhor canção do século em língua espanhola, uma indicação mais que merecida.

Sem ânimo de estimular comparações competitivas, a escolha na verdade homenageia Violeta Parra e a todos os que ajudaram a construir o gigantesco patrimônio da canção popular na América Latina , muitas vezes com o risco da própria vida como mostra o destino trágico do cantor revolucionário chileno Victor Jara, bem como do venezuelano Ali Primera, cuja circunstância da morte ainda permanece pouco esclarecida e ocorreu no momento em que aprofundava sua vinculação com os processos revolucionários latino-americanos, pelo o que foi constantemente ameaçado pela direta.

Violeta Parra pode ser considerada a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados, tendo sido autora de páginas inapagáveis, como a canção "Volver a los 17", que mereceu uma antológica gravação Milton Nascimento e Mercedes Sosa aqui no Brasil. Outra de suas canções, "La Carta", cantada em momentos de enorme comoção revolucionária, nas barricadas, nas ocupações tem entre os seus versos o que diz " Os famintos pedem pão, chumbo lhes dá a polícia". Mas suas canções não apenas são marcadas por versos demolidores contra toda a injustiça capitalista. O lirismo dos versos de canções como "Gracias a la vida" embalou o ânimo de gerações de revolucionários latino-americanos em momentos em que a vida era questionada nos seus limites mais básicos, assim como a letra comovedora de "Rin de Angelito", quando descreve a morte de um bebê pobre: " No seu bercinho de terra um sino vai te embalar, enquanto a chuva te limpará a carinha na manhã".

Mulher de inquebrantável ideário comunista, Violeta Parra começa no canto e no violão aos nove anos e aos doze compõe suas primeiras canções. Diploma-se como professora, numa época em que já compõe boleros e canções de características populares chilenas, ao mesmo tempo em que trabalha em circos, bares, salões de festa e em pequenas salas de bairro. Percorre zonas rurais gravando e recompilando música folclórica chilena a partir do que elabora uma síntese cultural do país até o momento escondida pela visão elitista disseminada pela burguesia e trava uma verdadeira luta contra as visões estereotipadas da América Latina, transformando-se em recuperadora e criadora da autêntica cultura popular. Além de compositora, cantora e poetisa, é artista plástica reconhecida, com trabalhos em pintura e cerâmica expostos internacionalmente, além de sua incansável atividade polemista e política.

Em homenagem a Violeta Parra, "Revolução Socialista" publica este belo artigo de J. Posadas que mergulha nas origens históricas da canção popular latino-americana e a letra de "Gracias a la vida", ao mesmo tempo que faz um chamado a todas as forças de esquerda a que cultivem a patrimônio cultural da humanidade, divulguem a música, a poesia, a literatura de características populares e revolucionárias, construindo a consciência sobre a necessidade de um novo modelo de comunicação, atuando como bem público e não escravizado pelas leis de mercado que obrigam a mídia a agir como instrumento de embrutecedora ocupação audiovisual e não como ferramenta para elevar o padrão cultural e informativo dos povos.

A origem da canção popular na América Latina

J. Posadas Dez/1980

A canção popular na América Latina teve sua origem na luta contra a dominação espanhola e portuguesa, e depois contra os ingleses. Essa luta motivou o movimento popular, que é a base, ainda que não exclusiva, que promove estas canções. E é assim porque nas origens da América Latina, o canto foi um meio de estimulo à luta. Cantos como a vidala argentina nasceu como canto de combate e protesto: inicialmente contra a dominação espanhola ou seja, a partir daqueles espanhóis que se transformaram em argentinos, "os crioulos".


Os temas que tratam da libertação da América do Sul são temas antiquados, por que se referem à libertação da dominação espanhola, inglesa, onde não tomam ainda o tema do imperialismo norte-americano – ou se tomam é muito pouco – nem tão pouco o problema dos capitalismos locais. Já não tem sentido tomar como motivo musical e libertação dos negros, dos escravos, dos índios. Embora existam canções assim, antigas. É preciso ter em conta de que essa falta de canções sobre temas atuais, é uma demonstração da falta de vida política. Ao não haver vida política, o cantor o poeta não tem como se orientar; então tomam o que têm pela frente e aparecem menos decididos do que a própria canção que está sendo interpretada. A canção aparece decidida, o tema não.


Tradição do canto na América Latina


Uma das expressões desta vontade e harmonia dos povos atrasados que buscam o progresso – atrasados, mas com certas bases culturais, ainda que restritas a pequenos setores da pequena burguesia – é uma das canções em que o pai diz ao filho que tome o fuzil e o violão, e que "aponte, dispare e cante". Une a função da guerra com a do canto, não tem o propósito de matar, assassinar ou destruir; pois mesmo matando, se é para o progresso, não se trata de destruir, é ordenar as formas de vida, eliminando aquilo que trava o progresso. Estas balas não destroem, são balas cheias de harmonia e de carinho que são utilizadas para construir o progresso e são usadas junto com o violão e o canto.


Na América Latina, há uma tradição muito grande do canto, porque vem das guerras de independência; primeiro contra os espanhóis, portugueses e ingleses, e depois contra os ianques. Essa é a origem aí se criou toda um movimento das canções.


No começo de uma dessas canções, se ouvem pássaros, o que é uma imagem do peso que tem a natureza para a Nicarágua é uma selva, quase toda a América Central é uma selva. Nos limites sul e norte da Nicarágua, também é selva; ainda que tanta concentração de cores, árvores, do conjunto da vegetação. Aí é menos denso. As florestas da Nicarágua, assim como as do Brasil e do Paraguai são belas e cheias de milhões e milhões de cores, de trinados de todos os tipos de pássaros. E esta canção começa assim, não somente para representar as florestas da Nicarágua, mas também para mostrar que a ação dos guerrilheiros incorpora a melodia da canção do pássaro. E por isto que logo em seguida do canto dos pássaros, vem a canção.


A concepção genérica a que nos referimos antes, se expressa através das canções, quando elas caracterizam o inimigo; não dizem "a burguesia" ou "os explorados", dizem: "os ricos, que chegam ao seu fim", "todos os dias os ricos roubam nosso pão". Usam uma linguagem de caracterizações que mostra a ausência de uma qualificação de classe. Mas o que determina neles não é esta insuficiência, mas a resolução de transformar a sociedade; e logo eles vão aprender o resto. Porque junto com a qualificação insuficiente, dizem: "Trabalhadores ao poder".


Que canções se pode fazer atualmente


O canto foi um desenvolvimento da capacidade humana para combater a depressão que havia na forma em que as massas viviam, fundamentalmente no campo. Era forma de encontrar, na vida, os sentimentos nobres, de beleza e de harmonia com a vida. O canto foi se desenvolvendo aplicado à guerra pela independência, à luta contra os latifundiários, os feudais, os capatazes; tudo isso foi sendo transformado em motivo para o canto. E por isso quando aparece o "violão americano" (N.R.: refere-se à América Latina) a cantar contra o ocupador estrangeiro, já se trata de uma forma intermediária de cantar, porque aí significa manter-se a serviço da propriedade privada contra outra forma de propriedade privada. Foi assim que o violão "começou a cantar". Mas não ainda a representar-se a si mesmo; isso só veio a acontecer recentemente, através da existência do proletariado, e junto ao progresso da luta das massas do mundo e dos países socialistas (Estados Operários). Aí sim, o canto passou a representar-se a si mesmo, se tornou genuíno.


As canções que se poderia fazer agora teriam que ser diferentes, muito superiores às da época da libertação da dominação espanhola, portuguesa e inglesa, e mesmo do imperialismo ianque. Quem promove todos os pentagramas desta etapa é a União Soviética. O problema já não é tomar o tema o inimigo que oprime o país, mas a classe que oprime o país, por isso o canto é e deve ser diferente. O cantor não sente ainda a segurança política para fazer esse tipo de canção, essa separação de classe. Como o tema do canto inclui o país que luta contra a dominação estrangeira, as relações determinadas pela própria burguesia da América Latina, surgem essas influências nas formas de qualificar: "o negro", "o índio", " toda a América", etc.


Ao mesmo tempo, isso tem certa razão de ser, pela ausência de grandes partidos operários; comunistas e socialistas.


E por isso que os temas musicais são antigos. Mas, reiteramos, o tema é antiquado, mas a expressão do canto não. Como existe a influência mundial da revolução, o cantor transporta o velho tema para hoje, e entre o tema e o conclusão expressada através da paixão do cantor existe uma grande diferença.


"Semearemos o amor na cicatriz da lembrança"


Dezembro de 1980.

J. Posadas


Extrato: Caderno Ciência Cultura e Política "A Música e a Construção do Socialismo"

Editado: Outubro de 1986

Os extratos são dos textos:(1) A Música regional Latino-americana e Mereces Sosa e (2) O significado das canções revolucionarias Nicaragüenses.

Letra da música

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