
Editorial
A corrupção e a guerra social permamente contra a população
Uma estatística do Ministério da Justiça informa que a cada
mês há cerca de mil novos presos apenas no estado de São
Paulo, o que permite compreender não apenas a falência do
monstruoso e corrompido sistema penitenciário, mas sobretudo,
como continuam piorando as já desesperadoras condições de vida
das massas pobres. Muito longe de uma social-democracia como de
modo envergonhado um ou outro político governista ainda tenta
insinuar, o Brasil está mergulhado em uma sangrenta guerra
social permanente do modelo econômico capitalista contra o povo.
Basta comparar as estatísticas de mortos e feridos causadas pela
criminosa ocupação militar israelense na Palestina com o
meteórico crescimento das chacinas, do extermínio de jovens
negros, pobres e desempregados no Brasil. Basta lembrar dados do
próprio governo para se ter a dimensão da guerra social
brasileira: na guerra da Yugoslávia , alvo de covarde bombardeio
da OTAN, o número de mortos não ultrapassou a 300, enquanto que
somente na capital paulista registraram-se mais de 7 mil
homicídios ao longo de 1999.
Este quadro sangrento, além de denunciar a hipocrisia da
mensagens natalinas que governo, poderosos e a mídia lançam ao
povo, dá os elementos para se compreender que o atual modelo
econômico é não somente perverso e desumano, mas também
incorrigível e irreformável, independente da vigência ou não
da suposta democracia formal. Esta suposta democracia é agora
transformada em fiadora do aumento desenfreado da corrupção,
dos massacres contra trabalhadores rurais e da excorchante
dilapidação dos salários, da poupança popular e , como pano
de fundo, do patrimônio público entregue ao capital estrangeiro
sob o manto de uma "legalidade" que só funciona contra
o povo.
É falso acreditar que a derrubada do Collor, a CPI dos Anões do
Orçamento, ou a CPI dos Precatórios tenham representado uma
vitória popular contra a corrupção. Todos os esquemas de
corrupção, seja o de PC Farias ou qualquer outro, permanecem
intactos, esbanjando criatividade e registrando uma voracidade em
direção aos cofres públicos que somente a certeza da
impunidade e a cumplicidade dos poderes públicos podem explicar.
A manobra da "fuga" e "prisão" do Juiz
Nicolau é a mais nova encenação com a qual se tenta desviar a
atenção da opinião pública e evitar que se perceba a rede de
interesses que ligam o desvio de verbas do TRT-SP a figuras do
mais alto escalão do poder. O que fica claro é as CPIs não
passam de caricaturas de uma investigação séria, e são sempre
conduzidas de modo tal que seus alcances não afetem os laços
que unem esquemas de corrupção às estruturas de poder. Com
isso se tenta dar uma aparente satisfação à pressão da
opinião pública por moralidade e transparência, contando
sempre com a colaboração de uma oposição confinada ao
parlamento, distante das praças públicas e tímida na denúncia
de que a corrupção é inerente ao modelo econômico
capitalista. Para ilustrar, vale citar a participação de
parlamentares petistas na liberação de verbas orçamentárias
recebidas pelo esquema do Juiz Nicolau/Luiz Estevão, seja por
desinformação seja rotina parlamentar, imperdoáveis numa
bancada de esquerda. Assim como também vale citar a curiosa
perda de vontade da bancada petista na instalação da CPI que
investigaria o escandaloso esquema do "Caixa 2" da
campanha eleitoral de FHC. A perda de vontade coincide com a
rejeição das contas de campanha do prefeito petista Tarso Genro
pelo Tribunal Eleitoral gaúcho: sua campanha eleitoral recebeu
doação generosa de uma empresa que presta serviços para a
própria prefeitura petista. Que os tribunais eleitorais só são
rigorosos com a esquerda, não há dúvida. Mas os fatos, até
agora sem desmentido, falam por si. E revelam uma lamentável
evolução no conceito de ética petista.
Cada vez mais envolvida no tratamento de sintomas laterais desta
política pequena e rebaixada, a oposição apequena-se e
praticamente se paralisa diante da maior de todas as
corrupções, a mais nociva, a entrega da economia brasileira, de
patrimônios incalculáveis, do controle do estratégico sistema
financeiro, ao capital externo. A venda do Banespa por um preço
que surpreendeu até a banqueiros que concorriam ao
"leilão", faz pensar que muitas destas privatizações
também servem para ocultar e regularizar inconfessáveis
manobras do capital estrangeiro de origem desconhecida, num
processo que não impede de modo algum a lavagem de dinheiro
ilícito. Sem contar que boa parte dos capitais empregados para
compra de patrimônio público brasileiro têm origem artificial,
e acumulação irregular, através de uma dívida externa repleta
de mecanismos só traduzidos como rapina! Diante do gigantesco
saque feito e dos que se preparam visando a Petrobrás, o Banco
do Brasil, a Caixa Econômica e territórios completos na
Amazônia, a oposição, na palavra de seus líderes, só tem a
dizer, candidamente, que não pretende, caso vá ao poder,
cancelar as privatizações, a menos que se apure alguma
irregularidade. A imagem de uma prostração não é exagerada! E
visa criar condições para ser admitida e aceita pelo sistema
como administradora do caos em caso de uma vitória eleitoral em
2002.
A resistência dos poderosos à quebra de sigilo bancário que
facilitaria a identificação dos sonegadores de imposto de
renda, agora corporificada na posição assumida pelo Supremo
Tribunal Federal, apenas indica os valores e princípios de
perversidade social que a burguesia utiliza na elaboração e na
aplicação das leis. Isto não surpreende. O surpreendente é a
credulidade de segmentos da esquerda na eficiência de medidas
legislativas possam combater a pobreza e o achatamento salarial.
O projeto de lei de combate à pobreza, caso implementado como se
imagina, permitirá apenas o insultante bônus de 16 reais por
ano para cada família pobre. E o plano de se utilizar os
recursos sonegados ao imposto de renda - além da resistência do
Supremo Tribunal que atende aos que usam o sigilo para a
acumulação ilícita de capital - muito provavelmente provocará
apenas uma mais ampla utilização do dólar na economia, além
do surgimento de novos e mais sofisticados mecanismos de
sonegação. A criatividade dos que detêm o capital é muito
superior á credulidade da oposição com a eficiência
legislativa. Basta citar que a própria Receita Federal divulgou
estatística informando que os grandes bancos, as multinacionais
etc são os que menos pagam imposto de renda no país e para
tanto valem-se de mecanismos existentes na própria lei (elisão
fiscal).
Os resultados das eleições municipais emitem sinais diversos
para a próxima etapa das lutas populares, em processo de
reanimação, seja através das várias e destemidas ações dos
sem-teto (suas visitas aos shoppings são corrosiva denúncia e
profunda lição política) , na retomada das greves
metalúrgicas, bem como no amadurecimento das ações do MST, mas
também animando segmentos da oposição a perceber que a
implosão da aliança governista do PSDB-PFL-PMDB permite acordos
com o campo conservador, nos quais, mais uma vez na história
política brasileira, os interesses populares serão sacrificados
em nome da manutenção do poder como tal. Os elogios do
governador Zeca do PT ao governo FHC no mesmo volume das
repugnantes críticas que faz ao MST, a quem responsabiliza pelo
clima de terror no campo, dispensando a oligarquia desta
função, revelam tanto quanto a tolerância da direção do PT
diante do fato.
O crescimento da votação na esquerda nas eleições municipais
fabrica ilusória perspectiva de crescimento eleitoral linear
para as eleições de 2002. Preocupado, o grande capital,
vocalizado pela mídia, já se lança à tarefa de fabricação
com os enormes recursos que dispõe de mais mito eleitoral. Num
primeiro momento, abre espaço para os candidatos alternativos a
Lula, com os quais também busca relacionamento, entre outras
formas, através do apoio financeiro concreto em suas campanhas
eleitorais ou movimentações. O empresário Mário Amato teme o
Lula mas apoia a Marta Suplicy, assim como empresários de peso
apoiaram a campanha de Tarso Genro, assim como instituições
financeiras internacionais dão amplo destaque às teses de
Cristóvam Buarque, assim como Suplicy recebe tratamento cada vez
mais simpático da grande mídia. Tudo indica a criação de uma
atmosfera adversa para uma candidatura de Lula, que, no fundo,
continua sendo o mais temido pelo grande capital, temor
reforçado com sua recente visita a Cuba e seus reconhecimentos
pelo imenso progresso alcançado pela Revolução Cubana nos
campos da saúde, da educação, do esporte, da cultura. O
curioso é que críticas da grande mídia a estes reconhecimentos
de Lula, também compartilhados pela UNESCO, pela Organização
Mundial da Saúde, e por personalidades como Gabriel Garcia
Marquez, Saramago ou pelo próprio Papa,
são esgrimidos no interior do PT contra o próprio Lula. Durante
estes 20 anos de luta pelo PT Lula sempre foi consagrado como o
líder capacitado; mas agora que a crise no campo da direita
projeta uma possível vitória eleitoral petista, estes setores
que sempre entronizaram Lula, passam a repetir as reservas da
mídia a um dirigente de origem operária,
"descobrindo" que ele não é o melhor candidato. Para
quem?
Uma certa reanimação do movimento sindical, com greves
metalúrgicas, de funcionários públicos, dos eletricitários da
Cemig ainda estão aquém de indicarem uma reação de porte à
devastação feita pelo neoliberalismo na economia brasileira,
ampliando o desemprego, a favelização e destruindo a
legislação trabalhista. Mas, apontam um caminho incontornável
para a estruturação de um amplo movimento de massas com uma
política de transformações sociais que arranque o Brasil da
miséria. As inúmeras ações do governo para isolar o MST dá a
medida do perigo que representa a heróica resistência dos
Sem-Terra ao neoliberalismo no campo, caso também sirva para
estimular uma política de resistência pelo movimento operário,
através de uma unificação das lutas do campo com as da cidade,
talvez a maior de todas as dificuldades das massas brasileiras no
momento. O pânico da burguesia é que, diante do esfacelamento
da aliança governista, a candidatura de Lula possa servir - se
retomada com a defesa de um programa de transformações sociais
como em 1989 e baseada na mobilização de massas - para
estruturar uma aliança operário-camponesa com um programa que
no momento vem sendo defendido exclusivamente pelos Sem-Terra.
A aplicação pelas prefeituras de esquerda de programas voltados
para pagar a dívida social com as massas secularmente
expropriadas - ao contrário da prioridade ao saneamento das
finanças capitalista como estimula a burguesia - poderá ter um
forte efeito político-educativo para a população favorecendo
uma retomada das grandes mobilizações de massas dos anos 80 e
início de 90. Junto a isto, a retomada de um debate no movimento
sindical, nos partidos de esquerda, e junto aos intelectuais e
cientistas, ao movimento estudantil, aos militares democratas e
nacionalistas, às correntes religiosas progressistas, de um
programa de estatizações dos setores chaves da economia, da
reforma agrária, de medidas de estímulo à produção de bens
de consumo para as massas pobres (sapatos, roupas, utensílios
domésticos, móveis, moradias, encanamento de água,
eletrificação, escolas, hospitais etc) é absolutamente
indispensável, fundamentalmente diante da desorientação de
alguns segmentos da esquerda, iludidos com a possibilidade de
atendimento destas reivindicações populares mesmo sem mudanças
no modelo econômico.
As lutas sociais registram um ciclo de retomada. Enfrentamentos
fortes das massas com a polícia em busca de moradia ocorrem até
no longínquo Tocantins. O crescimento dos votos à esquerda
serão entendidos pelas massas como estímulo para ampliarem suas
reivindicações e suas lutas, colocando as prefeituras de
esquerda diante do desafio de apoiá-las, chamando a uma luta
mais profunda pela mudança do modelo econômico onde está a
raiz dos problemas, ou, de em nome da "ordem pública",
admitirem as novas formas de repressão em constante
planejamento, valendo citar que neste ano de 2000, doze
militantes do MST foram assassinados e seis encontram-se até o
momento como prisioneiros políticos em São Paulo.
17/12/2000