
Cuito Cuanavale:
o princípio do fim do apartheid
Há
20 anos, em 23 de março de 1988, travou-se no sudeste de Angola a
decisiva Batalha de Cuito Cuanavale, na qual tropas angolanas, de Cuba e
da SWAPO, movimento armado de libertação da Namíbia, unidas, derrotaram tropas
do regime racista da África do Sul, que tinham o apoio da Unita e dos EUA.
Não surpreende que os
meios de comunicação comerciais, sempre tão zelosos em comemorar as datas mais
banais, seja sobre um desfile de moda, uma festa grã-fina ou um festival de
cerveja ou de rock, tenham a mais completa insensibilidade para um
registro, ainda que informativo, sobre esta Batalha de Cuito Cuanavale,
epopéia tão marcante na caminhada da humanidade para enterrar um dos mais
selvagens e brutais regimes da história, o apartheid mantido por décadas pela
oligarquia racista da África do Sul, obviamente, com a sustentação da
“democracia” norte-americana.
Vale relembrar. Em
Brasil reconhece
Angola e Kissinger vem ao Brasil
Agostinho Neto solicita
ajuda militar de Cuba, que, com o apoio da URSS, atende. Um fato notável é que
o primeiro país a reconhecer o novo governo de Angola é o Brasil, então
presidido por Ernesto Geisel. A posição brasileira causou grande insatisfação
junto ao governo dos EUA. Aliás, o reconhecimento brasileiro à Independência de
Angola inseria-se num leque de medidas da política externa brasileira de
então – tais como o reatamento com a China, a Romênia,
o acordo nuclear Brasil-Alemanha e o rompimento de um Tratado Militar com os
EUA e outras – que já indicava um outro alinhamento internacional do
Brasil, chegando a motivar uma visita repentina do Secretário de Estado dos
EUA, Henry Kissinger, ao Brasil. Segundo os relatos, Kissinger teria reclamado
junto ao presidente Geisel da política externa brasileira. Teria mesmo dito, em
tom de ingerência, que a postura brasileira reconhecendo o governo de Agostinho
Neto representaria na prática “fazer o jogo do comunismo internacional, o
Brasil alia-se a Cuba”. A resposta de Geisel teria deixado Kissinger
surpreendido e irritado: “Senhor Secretário, a nossa política externa não está
em debate com o senhor!” Bem diferente da diplomacia de “pés descalços” e
subserviente que o Brasil veio a experimentar nos anos
A solidariedade fundamental dos soldados cubanos em
Angola
Cuba pega em
armas contra o apartheid
Apesar da solidariedade
militar cubana a Angola, a crescente intervenção dos EUA no conflito, através
da África do Sul, faz com que boa parte do território do país escape do
controle do governo angolano. Em outubro de 1987, o Presidente angolano José
Eduardo Santos expõe a Fidel Castro as dificuldades monumentais e o risco de
uma derrota militar. Solicita, uma vez mais, que Cuba conceda mais apoio
militar. A dramática situação angolana é analisada exaustivamente pela direção
cubana que decide empenhar-se ainda mais decisivamente na guerra de libertação
do povo angolano, baseando-se nos princípios do Internacionalismo Proletário,
inscrito na Constituição Socialista de Cuba.
As tropas angolanas e
cubanas posicionadas na localidade de Cuito Cuanavale, estavam sob intenso
bombardeio do exército racista da África do Sul. O risco de massacre era
iminente. Enquanto resistiam, um novo plano estava sendo elaborado em Cuba para
inverter esta situação desfavorável. Em sucessivas viagens de 15 horas de
Havana até Luanda – num itinerário inverso ao dos navios
negreiros – aviões transportam dezenas de milhares de soldados
cubanos. Há também o fornecimento de mil tanques, milhares de baterias
anti-aéreas e num prazo recorde de 60 dias é construído um aeroporto com
estrutura suficiente para pouso e decolagem dos modernos aviões Mig-23, de
fabricação soviética, que Cuba também forneceria a Angola, juntamente com seus
melhores pilotos. O plano estava traçado para a Batalha final de Cuito
Cuanavale: 40 mil soldados cubanos bem armados e treinados, 30 mil soldados
angolanos e 3 mil guerrilheiros da SWAPO, o exército de libertação da Namíbia,
país que também estava ocupado por tropas da África do Sul.
Rumo ao sul
Fidel havia encarregado o
general Cintra Frias, veterano guerrilheiro de Sierra Maestra, do comando
destas operações
Não suportando os golpes
recebidos – em especial uma grande surra promovida pela atuação dos pilotos
cubanos nos MIG-23 – as tropas da África do Sul sofrem uma derrota fundamental
na Batalha decisiva que Nelson Mandela assim descreveria: “Cuito Cuanavale
foi a virada para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do
flagelo do apartheid!”
Sem dúvida, a luta de
libertação da Namíbia também recebia um grande impulso, e dois anos mais tarde,
este país também declararia a sua Independência. Entretanto, o governo racista
de Botha preocupava-se, pois pela potência e envergadura da estratégia armada
por Cuba no sul de Angola chegou a imaginar que as tropas cubanas pudessem
dirigir-se rumo ao sul, ou seja, rumo a Pretória. Na fuga, as tropas racistas
bombardearam pontes, revelando medo de uma ofensiva rumo ao sul. Enquanto as
batalhas ocorriam, com sucessivas derrotas impostas às tropas da África do Sul,
ocorriam no âmbito da ONU as famosas negociações em busca de um acordo,
negociações em que os representantes dos EUA exibiam toda sua hipocrisia. Mas,
há um diálogo que merece ser relembrado, quando o representante do regime
racista nestas negociações pergunta ao representante de Cuba, Jorge Risquet, se
havia a intenção de uma ação militar rumo ao Sul, a resposta é dessas que
entram para os anais de história militar: “Se eu lhe disser que vamos rumo ao Sul
isto seria tomado como uma ameaça, se eu lhe disser que não vamos rumo ao sul,
isto seria para vocês um calmante”. Deixou o racista atônito e confuso. E em
outra oportunidade deu o toque de realismo que a arrogância sul-africana não
queria reconhecer. “A África do Sul não tem condições de impor
na mesa de negociações uma situação de vantagem quando no campo de batalha está
sendo fragorosamente derrotada.” De fato, os negociadores
sul-africanos diziam que se retirariam “para a Namíbia”. A história foi
diferente, tiveram que sair também da Namíbia.
Condoliezza e o
Ministro Negro
Exatamente quando a
Secretária de Estado dos EUA, Condoliezza Rice visitava o Brasil, onde, entre
muitos temas mais importantes e nada divulgados, assinou um Plano de Ação pelo
qual Brasil e EUA decidem atuar conjuntamente para “eliminar a discriminação
racial”, a TV Cidade Livre, o canal comunitário de Brasília, realizava
um debate sobre a Batalha de Cuito Cuanavale, com participação de embaixadores
de Cuba, Angola, Namíbia e África do Sul, agora livre do apartheid. O
texto firmado por Condoliezza e o Ministro da Igualdade Racial, Edson Santos,
afirma que Brasil e EUA “partilham a característica de serem sociedades
democráticas multi-étnicas e multi-raciais”, o que teria motivado um
comentário de Fidel Castro em uma de suas Reflexões do Comandante: “É
assombroso. Penso que é exatamente o contrário o que acontece nos EUA”. Sem
dúvida, basta verificar as condições de vida da população negra que ainda hoje
vegeta sob os escombros do Furacão Katrina,
Quanto ao Brasil, sabemos
que os negros constituem maioria nas prisões, nas filas do desemprego, entre os
que recebem os salários mais baixos, entre os que vivem nas favelas, entre os
que estão nas fazendas com trabalho escravo. Num quadro dantesco como este, a
simples existência de um Ministério da Igualdade, pode ser uma boa notícia,
demonstrando a sensibilidade que o presidente Lula tem para a questão racial;
afinal, um de seus grandes amigos na época da fábrica era um negro. Também é
importante que uma das primeiras leis por ele sancionada é exatamente a que
introduz a disciplina “História da África” nos currículos da escola brasileira.
Qual foi a nossa
solidariedade?
No entanto, não se deve
deixar passar a oportunidade para uma reflexão bem mais profunda, por exemplo,
a partir da divulgação pela TV Brasil da histórica importância da Batalha de
Cuito Cuanavale para a libertação da África do Sul e para o começo do fim do apartheid,
permitindo às novas gerações tomar conhecimento de que houve um povo capaz de
levar sua solidariedade à expressão máxima de concretude: Cuba socialista foi o
único país que pegou em armas para combater o apartheid e para defender
a independência de uma nação irmã ameaçada pela ação colonialista dos EUA em
apoio à África do Sul e ao exército mercenário da Unita. Ou seja, nada pode ser
mais assombroso, como disse Fidel, que a Condoliezza venha reivindicar seu país
como uma democracia multi-racial e multi-étnica.
Cuito Cuanavale deve
servir também para os movimentos sociais, especialmente ao movimento negro
brasileiro, para refletir que a solidariedade deve ter tradução real, pois não
se tem notícia de que os nossos irmãos angolanos tenham recebido do movimento
negro, em solidariedade, uma aspirina que fosse. Enquanto que Cuba enviou para
Angola 350 mil homens e mulheres, de lá trazendo apenas seus mortos e as
medalhas desta vitória que jamais poderá ser apagada da consciência da
humanidade. Muito se exalta que o Brasil é o país como maior população negra
fora da África, mas qual foi a nossa solidariedade concreta quando ela foi tão
necessária? Quando vários estudos registram o seqüestro impiedoso de
contingentes negros africanos para formar o escravagismo nas Américas, e isto é
uma verdade cruel e inapagável, Cuba foi capaz de inverter o itinerário:
negros, brancos e mestiços partiam do Caribe para a Mãe África que estava sendo
estuprada pelo apartheid e pelos EUA para oferecer solidariedade,
para lutar com armas nas mãos, ombro a ombro com angolanos e namibiamos e impor
a primeira derrota, que tinha que ser militar, ao apartheid. Como disse
Mandela, em Cuito Cuanavale se deu a virada. Mas, uma virada marcada pela
consciência das tropas cubanas de serem a continuidade histórica do
internacionalismo proletário, de fazerem reviver o brado heróico de
Stalingrado, de retomarem o exemplo revolucionário das massas vietnamitas que
também derrotaram os EUA. Para a África Cuba enviou negros, brancos e mestiços
alfabetizados, cultos, um exército bem treinado, com consciência socialista, e
que não esteve em Angola para rapinar petróleo ou de diamante, como hoje fazem
de modo selvagem e assassino as tropas norte-americanas no Iraque. E a
solidariedade cubana com a África não se esgotou naquela histórica epopéia
militar: hoje milhares de médicos e professores cubanos trabalham em dezenas de
países africanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o contingente de
médicos cubanos na África supera o número de médicos que todos os países ricos
somados têm hoje naquele continente que tanto rapinaram. Por isso, é
indispensável um debate mais aprofundado sobre o papel de Cuba e Angola na luta
contra o apartheid, pois, não faz nenhum sentido falar da luta contra o
racismo desconhecer esta contribuição, ignorar a dimensão histórica da Batalha
de Cuito Cuanavale e, ao mesmo tempo, tomar como exemplo de luta anti-racial o
modelo norte-americano, quando foram os EUA os principais sustentadores do apartheid.
Recomendação ao
Ministro Edson Santos: que tal promover um debate sobre a Batalha de Cuito
Cuanavale na TV Brasil, exibindo lá os excelentes documentários cubanos sobre
esta guerra de libertação, com o que poderíamos furar este enorme bloqueio
informativo contra esta verdadeira façanha histórica realizada por Cuba para derrotar
o criminoso regime do apartheid? O momento é importante, não apenas pela
data, mas também porque uma das missões que trouxe Condoliezza Rice ao Brasil é
a de intimidar a comunidade de países sul-americanos diante da excelente
proposta brasileira de criação de um Conselho de Defesa do Atlântico Sul. Há
quem acredite que ela veio aqui para combater o racismo, mesmo sendo tão
assombroso acreditar nisto.