
DECLARAÇÃO
DO JORNAL REVOLUÇÃO SOCIALISTA
EM DEFESA DA NACIONALIZAÇÃO DO GÁS NA BOLÍVIA
Viva
a nacionalização dos recursos petrolíferos da Bolívia,
direito inalienável do povo boliviano!
Empreender
em toda a América Latina o caminho da
reconquista das riquezas nacionais espoliadas pelo Império!
Solidariedade
ao Governo e ao Povo Bolivianos,
reforçar a Comunidade Sul-Americana de Nações, acelerar a integração
entre os povos!
Neste
primeiro de maio histórico, o Governo boliviano na pessoa do dirigente indígena,
Presidente Evo Morález, cumpriu com a decisão já tomada pelo povo boliviano
em Plebiscito, de nacionalizar os recursos petrolíferos e galíferos da Nação
Boliviana.
É um
golpe mortal ao neoliberalismo, ao imperialismo, a todas as forças reacionárias
que se opõem ao processo de integração atualmente em curso na Comunidade
Sul-Americana das Nações, no esforço de fortalecer o Mercosul e integrar
outros países, e de construir uma aliança de países baseada não somente no
interesse econômico e comercial, mas centralmente na transformação social e
na superação do atraso e da miséria de milhões de latino-americanos.
É a celebração de um direito histórico e uma merecida vitória do
povo boliviano - pela qual pesadamente pagou com a vida ceifada de milhares de
lutadores sociais -
durante todos estes anos em que dedicou lutas de massas contra as conseqüências
nefastas do neoliberalismo! Sem contar com o passado, em que a Bolívia foi
fornecedora de ouro e prata para o Império Espanhol, depois de estanho para o
imperialismo mundial, e nesta última fase de petróleo e gás, sem qualquer
retorno para o desenvolvimento da maioria da população. De fato, é um dos países
latino-americanos que mais padecem de miséria, fome e exploração. Mas a tradição
revolucionária do seu povo, sua abnegação e determinação, permitiu colocar
no governo um dirigente sindical e indígena e campesino, e esta mesma firmeza
inspiram os seus atos corajosos.
A Bolívia
neste momento é a prova prática de que "um outro mundo é possível"
que vai além das formulações teóricas dos Fóruns Sociais Mundiais. É a
continuidade do processo de esquerdização da América Latina em curso, é o
reforço recíproco de processos que recolocam na pauta a necessidade, urgência
e possibilidade das transformações sociais.
As elites locais, fomentadas pelo imperialismo,
reagiram e reagirão com força contra estas medidas, contra esta tendência. Em
particular, no Brasil, saíram na frente, com os meios de comunicação de massa
que controlam, falando como porta-vozes do imperialismo, da campanha pela ALCA,
usando todo tipo de mentiras e alarmismos histéricos para jogar a população
Brasileira contra a medida tomada pela Bolívia, e em particular para intimidar
o governo brasileiro, chamando-o a romper relações diplomáticas e tomar
medidas drásticas contra o país-irmão.
Por isto, foi muito importante o reconhecimento oficial do
Governo Lula à nacionalização adotada pela Bolívia como ato de soberania
nacional, indicando sim a existência de condições políticas para que também
no Brasil as políticas energéticas sejam reorientadas em favor dos interesses
estratégicos nacionais, enfrentando a escalada de rapina neoliberal das
transnacionais.
Igualmente
colocaram na mira a diplomacia brasileira, que tem sido a ponta avançada do
governo Lula, acusando-a de "fracasso" e de ser "ideológica".
Acusam falsamente aos bolivianos de tergiversar, mentem descaradamente, falam de
"perigo de desabastecimento", de "aumento seguro de preços"
– quando não há qualquer ameaça a este respeito – e de "expropriação
violenta" – quando se trata de um processo de negociação e compra de
51% das ações pelo governo boliviano, com todos os ritos formais necessários
de renegociação de contratos, e fazem apelo à separação do governo
brasileiro do governo boliviano.
Tudo o
que eles querem e sonham é desmantelar
a Comunidade Sul-Americana de Nações, arrebentar com o Mercosul, torcer para
que os problemas com o Paraguai e o Uruguai se tornem irreversíveis, torcem
para reintroduzir a discussão da ALCA, repudiam a ALBA e principalmente culpam
ao Presidente Hugo Chávez pelas iniciativas da Bolívia, como mentor e
incentivador. E advertem para os "perigos" que o Peru siga o mesmo
caminho. O fazem em nome do Império, e em nome do desespero. E atacam
fortemente, de maneira repudiável, a nossa política externa independente.
É preciso, portanto,
fazer uma contra-ofensiva midiática, para esclarecer à população brasileira
a importância deste fato da nacionalização dos recursos petrolíferos da Bolívia,
como foi para nós "O Petróleo é Nosso",
e que, ao contrário, nós também devemos empreender o caminho de retomar as
riquezas nacionais fundamentais privatizadas com a privataria, a começar pela
Vale do Rio Doce, vendida a preço de bananas e de maneira ilegal. É grave que
não haja passado na Conferência Nacional do PT, na última semana, uma moção
neste sentido, mas a luta deve continuar, agora, reforçada pelo exemplo
boliviano.Ou seja, é preciso atuar de forma
inteligente e decidida na guerra informativa
- e lamentavelmente a
Radiobrás não se preparou nestes 3 anos para isto
- para explicar que a auto-suficiência brasileira em petróleo só foi
possível porque houve a nacionalização e a criação da empresa estatal, a
Petrobrás. Enfrentar a confusão criada pela desinformação da mídia, que só
agora resolve “defender” a Petrobrás, mas sempre foi favorável à sua
privatização, sendo que toda esta histeria se deve ao fato de falar em nome
dos acionistas estrangeiros que controlam as ações da Petrobrás, sendo o City
Bank o maior deles, e que ficam com
a maior parte do lucro da estatal, privatizando-o, lucro remetido regularmente
para o exterior. É hora de discutir a recuperação do controle acionário da
Petrobrás pelo povo brasileiro, este é o exemplo que vem da Bolívia, e esta
é a razão do pânico do império e da burguesia brasileira, porque sabe que o
gesto boliviano, que teve o apoio dos militares lá,
está pesando fortemente em amplas camadas militares nacionalistas aqui
no Brasil. Esta elite entreguista
que hipocritamente finge defender os interesses nacionais, é a mesma que
defende a continuidade dos leilões para desnacionalização do nosso petróleo,
permitindo que as transnacionais formem seus estoques estratégicos que deveriam
ser formados aqui para quando vier a inevitável crise mundial do petróleo, que
já desponta no horizonte, razão da guerra ao Iraque e das ameaças ao Irã,
ameaças que podem voltar-se contra o Brasil, assim como já atingem a Venezuela
e agora, fatalmente, a Bolívia. É preciso que o governo, os partidos
progressistas, as entidades do movimento sindical, os nacionalistas, aproveitem
o ensejo, o impulso boliviano, para também adotarem uma linha política de
recuperação de tudo o que foi ilegalmente privatizado no Brasil, bem como para
defender abertamente a criação de uma Empresa Estatal de Bioenergia, caso
contrário, o biodiesel brasileiro será controlado pelas transnacionais e será
uma solução de poder para o imperialismo, como já indicam as volumosas
compras de terras no Brasil por magnatas como Bill Gates, George Soros, bancos
franceses e japoneses. O gesto da Bolívia serve para acordar a consciência
nacional!
É fundamental que o governo Lula tome medidas para que a Radiobrás tenha de verdade alcance nacional, que não tem hoje, investindo nela o que hoje investe na mídia privada que tanto distorce as ações do governo, e que faça a disputa midiática pra valer para desmentir a estória que após a nacionalização boliviana ocorrerá o "caos", como querem mostrar na Bolívia, que os bolivianos não serão capazes de manter os investimentos e gerenciar o processo de incorporação das refinarias e poços de petróleo e gás. Quando da crise de desintegração da União Soviética, e ali sim houve uma crise de gravíssimas proporções, retrocessos, mas não houve interrupção no fornecimento de gás para a Europa Ocidental, abastecida pelo gasoduto Rússia-Europa. O gasoduto Bolívia-Brasil foi construído pela Petrobrás, mas para favorecer as transnacionais que controlavam os recursos energéticos bolivianos, e esta mesma mídia brasileira escandalosa é incapaz de dar esta informação. O gás "boliviano" não era da Bolívia, era das transnacionais, o gasoduto foi construído com recursos da estatal brasileira, mas o grande lucro era apropriado pelas transnacionais, sendo a Petrobrás obrigada a pagar pelo gás, mesmo se não o utilizasse. O que o governo da Bolívia está fazendo é terminar com os acordos de rapina, devolver ao povo boliviano o que de fato sempre lhe pertenceu, e avisar aos que querem comprar e explorar esta riqueza econômica que devem pagar o preço justo.
É preciso desmascarar estas mentiras de caráter
neocolonial!
Mas
muito pode fazer o Brasil, o governo Brasileiro, mantendo a nave no rumo, firme,
renegociando com os bolivianos, estabelecendo o justo intercâmbio de
mercadorias, de recursos energéticos, reforçando os acordos para construção
do gasoduto latino-americano da Venezuela até a Argentina, integrando mais e
mais as economias, por meio dos respectivos Estados e não simplesmente da
"iniciativa privada", que como se viu no caso da empresa siderúrgica
brasileira instalada em Santa Cruz de la Sierra não respeitava a mínima
legalidade e controle por parte do Estado Boliviano. Este tipo de "integração"
predatória deve ser rechaçado, o princípio é: TODA RIQUEZA DEVE SERVIR AOS
POVOS!
Evo Morález havia já declarado recentemente no
programa televisivo “Roda
Viva”. que não fazia qualquer sentido que o povo boliviano navegasse sobre um
mar de petróleo e gás sem ter gás de cozinha nas próprias casas (a
esmagadora maioria dos lares bolivianos ainda cozinha a lenha) e vivendo na miséria
absoluta.
Entretanto, as elites
brasileiras, representando o imperialismo, e as elites regionais, tentarão de
introduzir cunhas na Bolívia, a começar por recolocar a questão do
separatismo da região de Santa Cruz de la Sierra e fronteiriças com o Brasil.
Já começou a campanha de desestabilização! Não podem tolerar que a Bolívia
se aproxime da Venezuela e declare abertamente seu apoio a Cuba, que fala
acordos para erradicar o analfabetismo em 18 meses e declare querer seguir o
caminho do socialismo.
Pois
é preciso então que a esquerda se mobilize no Brasil em apoio à nacionalização
boliviana, mas também enviando delegações de petroleiros, de sindicalistas e
movimentos sociais, para se discutir uma linha solidária de atuação contra as
transnacionais, para desmascarar esta conspiração e que apóie abertamente ao
povo-irmão boliviano nesta sua luta por dignidade, pelo desenvolvimento
nacional, e por libertar-se dos grilhões de séculos de exploração colonial e
neocolonial.
Chamamos a Cut, o PT, o MST, a UNE a
uma posição pública de apoio ao governo da Bolívia, e a propor uma agenda de
diálogos populares para que a relação Brasil-Bolívia seja mutuamente
vantajosa para os dois povos e para impedir que o imperialismo manipule para
jogar um povo contra o outro!!!
As duas décadas de neoliberalismo extremo na Bolívia foram a
maior tragédia social que una Nação poderia ter sofrido. A decisão boliviana
é um convite e um encorajamento para saiamos também das décadas perdidas,
entremos na era das transformações sociais! O povo boliviano está nos
estendendo as mãos para que nos unamos para recuperar ao patrimônio público
criminosamente privatizado e internacionalizado.
Seguir, portanto o exemplo da Bolívia, retomar o controle das riquezas
nacionais! Os capitais virão do próprio esforço dos nossos povos, do Banco do
Sul, do aborto da escandalosa remessa de lucros, das especulações financeiras
internacionais.
BRASIL, 2 DE MAIO DE 2006