
Editorial
O ASSASSINATO DE SEM-TERRAS, A DEMOCRACIA SANGUINÁRIA DE FHC E A UNIÃO DAS FORÇAS POPULARES COM UM PROGRAMA DE TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
A divulgação de estatísticas mostrando que o
número de trabalhadores rurais mortos na década de noventa na
luta pela reforma agrária supera o número de militantes
executados durante o período da ditadura militar - estatísticas
não refutadas pelo governo - dá uma indicação precisa da
democracia sanguinária instalada pelo capitalismo no Brasil. O
trágico pano de fundo desta denúncia foi o assassinato recente
de mais duas lideranças dos sem-terra no Mato Grosso do Sul,
crime praticado com macabros requintes de uma execução
política feita por seguranças de uma empresa especializada na
proteção de grandes fazendeiros, sem que nenhuma mobilização
ou denúncia tenha sido feita pela esquerda, ouvindo-se do PT e
da CUT apenas um vergonhoso silêncio. Não é casual que os
contingentes destas empresas privadas de seguranças superem em
número os contingentes militares, para uma população cada vez
mais imersa ao repetir cotidiano de chacinas e crimes de todo
tipo!
É esta a única forma de existência do capitalismo, combinando
a formalidade e a hipocrisia jurídicas com a multiplicação da
pobreza, a desnacionalização da economia com a proteção à
impunidade da oligarquia, a tolerância para com o sistemático
assalto das elites aos recursos públicos com a generalização
da violência social, do desemprego e da contaminação ambiental
e alimentar. Para dar a medida da barbárie social em que a
população está sendo afundada pelo capitalismo, basta citar
denúncia feita pelo MST de que populares costumam vasculhar
lixos hospitalares em Salvador à cata de placentas humanas,
único tipo de carne de que se podem alimentar!
Assim como a crueza e a gravidade desta denúncia revela uma
"democracia" apenas para os poucos ricos, os números
também desafiam as oposições, em particular o PT e a CUT, a um
balanço de suas próprias políticas. Ao tempo em que o PT
concentra-se numa rotineira ação parlamentar sem sintonia com
iniciativas de massa, o Brasil vai padecendo do maior e mais
grave processo de destruição de legislações importantes a que
se tem notícia, um estraçalhamento da Constituição que é na
verdade um golpe de estado diluído ao longo do tempo, sem
quarteladas ou tropas. Um estudo recente da Unicamp informa que
98 por cento das leis aprovadas pelo Congresso no ano anterior
beneficiaram ao capital internacional, aos banqueiros, aos
oligarcas e empresários, números que atribuem à esquerda
parlamentar a melancólica função de legitimar esta gigantesca
fraude contra o povo brasileiro, sendo que as decisões
fundamentais são emanadas dos centro de poder localizados no
exterior.
Enquanto a oposição concentrava-se prioritariamente num
parlamento absolutamente sem nenhum poder, atuava na CPI ou na
caricatural Subcomissão do Judiciário para apurar o roubo
alguns milhões na construção de um prédio inútil e de
gigantismo acintoso - para o qual o PT também coonestou o envio
de recursos - uma verdadeira rapina de magnitude incalculável
estava sendo realizada, seja através da venda de 33 por cento
das ações da Petrobrás a preços que não atingem 5 por cento
do valor real, ou, o caso mais emblemático, da verdadeira
doação, privatização a preço negativo, da Cia Vale do Rio
Doce, o maior patrimônio mineral do mundo e ainda não
devidamente dimensionado, o mesmo ocorrendo com as demais
privatizações. O depoimento do Deputado petista José Coser
apenas ilustrou a fragilidade da política do PT que, ao invés
de combater toda a sistemática orçamentária por ser sempre
eivada de corrupções e fraudes, termina envolvido num processo,
inerente ao parlamento, de alimentação de esquemas
especializados de corrupção e desvio com verbas que jamais
deveriam ser destinadas a uma obra faraônica, muito menos com
algum tipo de conivência do PT, ainda que formal. Enquanto isto,
o capital internacional vai organizando seu assalto à Petrobrás
sem encontrar uma ação de protesto e de mobilização de massas
que seja, num crime que pode inviabilizar um projeto de Nação,
fazendo o país retroceder em décadas. Estão presentes as
condições para que o PT, o movimento sindical, convoquem
manifestações em conjunto com o MST exigindo a anulação da
venda destas ações da Petrobrás, paras quais devem ser
chamados os militares nacionalistas e a UNE (que deve sair do
ostracismo), pois foi através de uma aliança de um setor
militar com a população, na década de 50 que se organizou a
vitoriosa campanha "O petróleo é nosso!" Ao lado
disso, novos golpes estão sendo tramados pelo grande capital
contra os trabalhadores, como por exemplo, na medida provisória
que altera regras de depósitos do FGTS pelos empresários,
facilitando condições para que os sonegadores embolsem
definitivamente o dinheiro que é dos trabalhadores. Eis aí a
verdadeira cara da democracia neoliberal e a função do
parlamento!
A questão não é atuar ou não no Parlamento, mas como usá-lo
de maneira a repercutir e ampliar a defesa de um programa e de
uma política junto ao movimento de massas, caso contrário, toda
a combatividade se reduz às infrutíferas iniciativas
parlamentares. Mesmo que fosse criada a CPI para o caso Eduardo
Jorge- hipótese remota pois dependeria de rupturas no campo da
burguesia, improváveis neste momento - provavelmente seus
resultados também seriam pífios e limitados, aliás como tem
ocorrido. A CPI do Judiciário apenas cassou um senador e nenhum
tostão foi devolvido aos cofres públicos; identificou-se apenas
uma obra irregular quando é notória a generalização desses
esquemas corrompidos a todas as obras. Houve muito mais um ajuste
de contas entre empreiteiras do que conquista de transparência e
a grande revelação, reiterada aliás, é da impotência do
parlamento para fiscalizar qualquer coisa já que os citados
esquemas também estão presentes ali dentro. Qual o resultado
concreto da CPI dos Remédios depois que os oligopólios
farmacêuticos acabam de aumentar o preço dos remédios
ridicularizando os setores de esquerda que acreditaram na
eficiência da ação parlamentar, que além de rotineira e
tímida, veio desacompanhada da indispensável discussão da
estatização do setor farmacêutico e de seu controle popular?
O rebaixamento da campanha eleitoral municipal aos níveis
aceitáveis pela legalidade democrática das elites, explicam a
apatia e a ausência de uma discussão político-programática
que eduque a população, que estabeleça vínculos com a sua
ação direta nas administrações populares, indicando que o PT
caminha para - com poucas exceções - repetir a concepção
aplicada em alguns governos de esquerda. Nestas experiências as
políticas públicas foram reduzidas a ação uma acanhada e sem
audácia diante das carências gritantes e urgentes da
população mais explorada, de quem alguns governantes petistas
haviam recebido um voto de confiança para uma ação muito mais
destemida do que fazer alguns poucos milhares de bolsas escolas
que simplesmente se diluem sem impactos importantes no universo
de tragédia social vivido pelas massas.
Escondendo-se da campanha eleitoral municipal devido sua
impopularidade e depois das várias derrotas sofridas pelo Brasil
no âmbito da Organização Mundial do Comércio, FHC convoca uma
Reunião de Presidentes da América do Sul, buscando aparentar
independência dos EUA e projetar-se como liderança capaz de
conquistar recursos e pedacinhos de mercado internacional, ao
chantagear com o programa da integração regional. O presidente
da Venezuela, Hugo Chávez roubou a festa e deu o tom político
numa reunião sem pauta clara, transformando-a em um fórum de
discussão sobre a intervenção do imperialismo na Colômbia,
aproveitando também para relacionar-se com os massas, já que
foi ovacionado em palestra para estudantes e professores numa
universidade em Brasília, onde convocou a juventude a defender a
integração latino-americana no bojo de uma política
antiimperialista e popular. A integração é inconveniente para
o imperialismo porque enseja o surgimento de novas correntes
militares antiimperialistas que se convencem de que a
globalização, a privatização, a montagem artificial das
dívidas externas, nada mais são que a transformação de todo o
continente em uma grande colônia, como provam a dolarização no
Equador e intervenção militar ianque na Colômbia, ou a
destruição da legislação trabalhista na Argentina. Ao mesmo
tempo, todas estas correntes atentam para a posição soberana de
Cuba, como para o discurso pronunciado por Fidel Castro na
Cúpula do Milênio na ONU, denunciando a catástrofe social em
que vive a humanidade, a exploração dos países capitalistas
ricos e uma economia em que predominam mecanismos financeiros
articificiais, virtuais.
Por isso, o Plebiscito da Dívida Externa transforma-se numa
derrota para o governo mesmo sendo um tema de difícil
compreensão para a população, que intuitivamente percebe viver
num país de riquezas colossais concretas que poderiam
proporcionar um padrão de vida decente para todos não fossem
rapinadas por uma classe dirigente antinacional. Mesmo com seu
alcance simbólico, politicamente o Plebiscito acabou envolvendo
as igrejas, os religiosos, mesmo seus setores mais reticentes ou
conservadores, provocando toda uma discussão política que anima
a militância que encontra-se sem centros de intervenção e
forma novas lideranças, mostrando ao mesmo tempo a possibilidade
de concreta de ações que unifiquem o MST, as pastorais sociais
das igrejas, e os diversos segmentos da militância que
encontram-se retraídos para a luta sindical específica ou o
movimento estudantil que está paralisado, quando o país está
sendo esquartejado. Estas experiências positivas, mas de alcance
limitado, podem ser acompanhadas de uma discussão programática
mostrando que o Brasil não sairá da miséria se não houver
profundas transformações no seu modelo econômico, com reforma
agrária, estatização dos bancos, investimentos na saúde, na
educação, plano popular de moradia, transformação do sistema
de comunicação. Mesmo se houvesse o cancelamento ou a
moratória da dívida, sem estas transformações a dívida se
refaz, porque é um projeto imposto artificialmente pelo
imperialismo.
9.9.2000