As condições para as mudanças de rumo
e para um Governo Popular baseado nos sindicatos

 
O presidente Lula comemora os 30 anos da greve da Scania no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

 

 

            A elevação do apoio popular a Lula e a ineficácia da campanha moralista da direita para a desestabilização do governo, são dois lados da mesma moeda. O crescimento da popularidade de Lula ocorre apesar de todos estes ataques da mídia capitalista contra ele, indicando que , na verdade, a burguesia jamais aceitou que Lula fosse eleito, como não aceita que seu governo não seja um desastre retumbante, muito menos que receba da parte das camadas mais proletárias da sociedade, apesar de uma série de medidas erráticas, a compreensão e uma atitude tática materializada nesta popularidade. Setores da esquerda podem até desdenhar e questionar a validade política desta popularidade, mas o comportamento da direita diante dela, seja por meio de uma arrogância desesperada, seja pelos ataques mais descabidos que FHC é escalado para fazer contra Lula, seja pelo tom de campanha anti-Lula em que se transformou o noticiário, até mesmo certas telenovelas, indica o medo de uma derrota eleitoral agora em outubro, que já vislumbram nova derrota em 2010.

            A direita revela-se desconcertada diante da popularidade de Lula, ainda que muitas medidas na política econômica e financeira beneficiem amplos setores do capital, a começar pelas altíssimas taxas de juros que remuneram o capital parasitário de modo indecente, sem qualquer demonstração de que há necessidade desta condescendência ante a burguesia. Lula segue fazendo um “bonapartismo sui generis” – um discurso com medidas para neutralizar a direita e outro para atender aos segmentos mais excluídos da sociedade, bem como para o movimento sindical e a classe trabalhadora em geral, com o quê também intimida a direita. Um exemplo marcante disso ocorreu na semana que passou quando após lançar uma Política Industrial que apoia o empresariado e fortalece as exportações, mas também aumentando a presença do estado como alavanca desta política (conforme destacam os economistas de esquerda localizados no IPEA), Lula, no dia seguinte, comparece ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em ato de comemoração dos 30 anos da Greve da Scania, quando o movimento sindical deu nova arrancada no Brasil, trazendo como frutos a formação do PT e a organização da CUT. Entre estas medidas que ampliam a relação de Lula com os trabalhadores está a legalização das centrais sindicais, um dos fatores decisivos que resultaram no golpe militar de 64 contra Jango que estava prestes a legalizar a unificação sindical da classe trabalhadora.

            Novas arremetidas da direita já estão sendo desenhadas com a posse do conservador Gilmar Mendes na presidência do Supremo Tribunal Federal. Basta lembrar que na solenidade da sua posse Mendes fez um discurso bem sintonizado com o da oposição conservadora, atacando as medidas provisórias, e colocando na primeira fila de convidados, no local reservado aos familiares e ex-presidentes da república, a sombria figura golpista de Roberto Marinho Filho, presidente das Organizações Globo, principal partido político da direita no Brasil. . Poucos dias após a posse de Mendes, um grupo de acadêmicos e intelectuais, com alta promoção e sintonia com o jornalismo da Globo, entrega no Supremo um manifesto contra o sistema de cotas que permitiu o ingresso de centenas de milhares de estudantes pobres e negros na universidade brasileira., um dos projetos dos quais Lula mais se orgulha. Ele não teve oportunidade de cursar a universidade, mas está adotando medidas para que muitos milhares de “Lulas” tenham as condições de fazê-lo.

            Todas estas ações orquestradas por parte da direita terminam por revelar um temor de que de fato Lula e o PT decidam-se pela tentativa de uma reforma constitucional que permita sua permanência no governo por mais um mandato. Sabe muito bem a direita que a regra no Brasil é a mudança de regra a cada eleição. Por isso ela mesmo teme que agora, aquilo que ela sempre praticou de modo golpista e casuístico, ao arrepio das leis e sem apoio popular, seja uma alternativa que Lula submeta democraticamente a um plebiscito popular, com enormes possibilidades de aprovação. Sobretudo porque o cálculo no raciocínio popular é que o risco da volta dos tucanos ao poder seja a retomada das privatizações, a repressão contra os movimentos sociais, a direitização da política externa para uma sintonia com os EUA, abandonando as ações para uma integração com Argentina, Bolívia, Venezuela, e com os países do BRIC (Rússia, China, Índia e África do Sul), o que se constitui em um contra-balanço parcial aos planos provocativos e de cunho militar do imperialismo ianque em escala regional e também internacional. Ou seja, os EUA não podem contar com o Brasil hoje, ao contrário, a política de Lula foi determinante para a derrota da ALCA, como destacou o próprio Hugo Chávez.

            Ao contrário, longe de sinais que indiquem reaproximação com a política que favorecia aos EUA no passado, o Brasil está emitindo sinais concretos de que uma pressão nacionalista evolui na sociedade e no interior do próprio governo Lula. Ainda que nada disso seja organizado pelo PT, ou pelas Centrais Sindicais, que seguem numa atuação descontínua, sem presença dirigente e programática nas lutas sociais, incapazes até mesmo de montar uma imprensa de caráter popular e de massas, para organizar e politizar a relação desta popularidade difusa das grandes massas com o governo. O que intimidaria ainda mais a direita desnorteada e encorajaria alas mais de esquerda no governo a uma ação que leve Lula mais à esquerda em muitas de suas políticas. Como, por exemplo, na gritante urgência para que a TV Brasil seja o mais rápido possível captada como tv aberta em todo o território nacional, contra-balançando a campanha midiática anti-lula disfarçada de jornalismo. Exemplo disso, são as declarações do próprio ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, cujo passado conservador é conhecido, afirmando que o Brasil tem necessidade de uma nova Lei do Petróleo para que as novas riquezas petroleiras recém descobertas não sejam pura e simplesmente destinadas às petroleiras transnacionais e aos acionistas gringos, ao contrário do que sustenta ,surpreendentemente, o Diretor-Geral da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima. Ou seja, as nacionalizações adotadas pela Venezuela, o Equador, a Bolívia, a China e a Rússia, têm efeito sobre correntes do governo Lula dispostas a um enfrentamento superior com o imperialismo, ademais porque percebem que estão presentes as condições políticas para que uma política mais antiimperialista seja assumida. Um exemplo disso, está na recuperação da indústria naval a partir de iniciativas do estado, gerando milhares de emprego, fortalecendo o movimento operário e, ao mesmo tempo, retomando parcialmente a soberania produtiva, devastada pela trágica Era Neoliberal que destruiu a marinha mercante brasileira, para favorecer o capital externo pura e simplesmente.

            Empresa Brasileira de Agroenergia

            Um outro exemplo destas condições é a decisão positiva de Lula de assumir a polêmica mundial com a indústria petroleira (que também controla o fluxo de informação internacional) em defesa da energia renovável. Tem bastante importância quando Lula denuncia que há uma “guerra comercial contra o Brasil” por trás das críticas que a produção de etanol vem recebendo, pois não há nexo entre a produção de biocombustível no Brasil e a elevação do preço dos alimentos, cuja causa fundamental é o monopólio internacional do setor pelas transnacionais e a alta especulativa do preço do petróleo, elevando o custo de produção da agricultura petro-dependente e o do transporte.

            Entretanto, o melhor argumento que Lula lançar mão nesta polêmica seria o exemplo de ter uma empresa estatal de agroenergia que viabilizasse a produção de biocombustível numa aliança com a agricultura familiar, sem danificar a biodiversidade, gerando milhões e milhões de emprego e renda, não sucumbindo à monocultura, inevitável quando o biodiesel é produzido a partir da soja, que além de ser menos eficiente energeticamente, trata-se um setor controlado por cartel de 3 empresas transnacionais. Ou seja, o que Lula poderia mostrar ao mundo é que no Brasil a energia renovável, além de contribuir para a descontaminação ambiental (calcula-se que em 30 anos de etanol o Brasil retirou da atmosfera 650 milhões de toneladas de CO2. Que outro país teria oferecido uma contribuição semelhante para o desaquecimento global?) e preservar a biodiversidade, alavanca a agricultura familiar, impulsiona a produção de alimentos, descentralizando a produção, possibilitando a auto-suficiência energética regionalizada, além de criar as bases para uma nova etapa produtiva da humanidade, em substituição à inevitável e previsível derrocada da era dos fósseis. Um papel dirigente para a concretização desta aliança entre o Governo Lula e a agricultura familiar, o MST, o MPA, poderia estar sendo desempenhado pelo PT, que em seu último Congresso até apoiou a resolução pela criação de uma Empresa Brasileira de Agroenergia e pela realização de uma campanha “A agroenergia é nossa”; mas, esta resolução ainda não foi colocada em prática, apesar da positiva ofensiva do Lula em defesa da energia renovável. Por isso é urgente a criação desta empresa estatal para barrar o processo de desnacionalização territorial que visa transformar o Brasil numa “plantation”, sob o comando do capital externo, sendo insuficiente a criação de uma subsidiária da Petrobrás para o biocombustível, já que é da natureza intrínseca da Petrobrás operar, planejar e pesquisar dentro da ótica dos combustíveis fósseis, e sob forte influência negativa dos acionistas internacionais da petroleira.

            

            Conselho de Defesa Sul Americano

            Também deve ser considerada como forte indício de uma posição mais independente do Brasil ante o imperialismo a proposta de criação de um Conselho de Defesa Sul Americano sem a presença dos EUA, que chegaram mesmo a oferecer-se para participar, oferta rejeitada pelo Ministro da Defesa , Nelson Jobim. A resposta dos EUA não se fez esperar, nem é direcionada exclusivamente ao Brasil, mas também a Venezuela: a reativação da a Quarta Frota para a América Latina. O tom deste enfrentamento surdo pode ser medido pela declaração recente de Jobim: “A esquadra dos EUA não entrará sem autorização em águas territoriais brasileiras e nem será autorizada a realizar fiscalização por aqui”. Também tem sentido nacionalista – embora desacompanhada de um programa adequado – a declaração do Comandante Militar da Amazônia de que “forças internacionais querem criar um novo Kossovo”, advertindo e criticando ao mesmo tempo a ação imperialista dos EUA que inventaram um país no coração da Yugoslávia, não sem antes bombardeá-la por uma campanha noticiosa manipulada e depois com mísseis carregados com urânio “empobrecido”. A declaração indica que no meio militar brasileiro está presente um cálculo que o Brasil pode ser um alvo uma operação separatista, especialmente em razão de sua imensa riqueza em minerais estratégicos e biodiversidade, cobiçada pela indústria químico-farmacêutica e pela indústria bélica, aliás, interligadas. Considerar esta declaração do General Heleno não significa apoiar grileiros-arrozeiros, nem desconhecer os direitos indígenas à demarcação de terras. A questão central está na necessária mudança do modelo de desenvolvimento tanto para a Amazônia como para o resto do Pais, discussão até agora ausente nesta crise de Roraima, onde também não se deve adotar posição ingênua sobre a atuação das ONGs remuneradas por estados imperiais que nunca esconderam a sua tese de internacionalização da Amazônia. Deve ser discutido atentamente o exemplo de medida adotada pela Venezuela Bolivariana que, após perceber a atuação colonizadora e desagregado do movimento “evangélico” chamado Novas Tribos entre os indígenas da amazônia venezuelana, os expulsou, porém substituindo aquela presença nociva à soberania nacional venezuelana pela criação de um Ministério Indígena, diretamente dirigido por indígenas, que tiveram seus direitos reconhecidos na Constituição Bolivariana, e por uma efetiva presença do poder público na região, com apoio de medidas de estado para a educação, a saúde, a eletrificação, etc das comunidades indígenas. No Brasil falta um projeto que permita aos indígenas não serem vítimas nem de agressões de grileiros e madeireiros, nem da manipulação de ONGs remuneradas pelo imperialismo. Falta desenvolver uma aliança já existente entre militares e indígenas, ao contrário da linha de jogar índios contra militares. Para isso, é preciso um modelo de desenvolvimento que não se limite à simples demarcação das terras indígenas, mas que inclua políticas públicas que permita às comunidades indígenas superar os indicadores de miséria. Mantidas suas tradições e sua cultura.

            É urgente superar a falta de iniciativas do PT e das centrais sindicais que podem perfeitamente aproveitar as correlações de forças para aprofundar uma tática junto aos movimentos sociais, às forças progressistas, incluindo os militares nacionalistas, para debater a necessidade de mudanças no modelo econômico, superando a armadilha das altas taxas de juros, do aumento desenfreado da dívida pública, da esterilização de recursos para saciar a ganância da oligarquia financeira. Existem condições para uma tática que tem como base o apoio dos sindicatos e dos movimentos sociais ao governo Lula, com o que se cria as condições para corrigir e superar políticas que ainda mantêm o Brasil numa posição semi-colonial, privilegiando a produção e exportação de produtos primários. As condições para uma mudança de rumos no governo existem. E esta mudança é urgente.

             

 

 

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