

A
falência do sistema educacional capitalista e o movimento estudantil de 68 na
França
4
de julho de 1968
J.
Posadas
São muito importantes as reivindicações por uma maior participação dos
estudantes nos órgãos de direção das universidades, no programa de estudo, na
administração, nas matérias a discutir. Tudo isso é muito importante. Mas o
capitalismo francês não pode sustentar isso. É preciso apoiar estas
reivindicações dos estudantes, mas chamando novamente a uma agitação para
discutir o sistema educacional. O sistema educacional capitalista deve ser
substituído pelo sistema educacional socialista. A base fundamental da
discussão do novo sistema deve ser: para que serve a educação? Simplesmente
questionar isso: qual o objetivo da educação? O sistema educacional, cultural –
primário, secundário, universitário –, organizado em função da propriedade
privada não traz benefício para a humanidade. O sistema educacional capitalista
é falso. A medicina, as ciências, a química, a geometria, a agricultura, tudo
deve ser voltado para o sentimento e para a necessidade coletiva da sociedade.
O capitalismo não
pode promover a educação
Para cumprir essa
função, a direção da Universidade tem que
ter o programa que corresponda ao interesse de toda a sociedade. Entre
cultura
e sociedade não pode haver diferença, mas unidade. A
cultura prepara o
conhecimento para o progresso coletivo da sociedade. Na sociedade
capitalista
essa condição não existe porque a sua
função é desenvolver o sentimento
individualista que sirva ao sistema capitalista e nada mais. Por isso,
ainda se
mantem o programa e a estrutura de funcionamento de 500 anos
atrás; inclusive,
escolas, casas, edifícios daquela época. Por quê?
Porque não há interesse pela
propagação da cultura. Ao contrário, o
desenvolvimento cultural é contido e se
constitui uma pequena “claque” que lhes serve diretamente
à função de
concentração da técnica nos moldes capitalistas.
O sistema capitalista não
tem mais interesse no
desenvolvimento universal e geral da cultura porque já
não precisa dela. O que
mais necessita agora é do exército de profissionais com
conhecimentos técnicos
e científicos. Enquanto isso, as massas estudantis, mesmo de
origem burguesa,
sentem que o sistema capitalista não lhes oferece mais
perspectiva. Sentem o
ambiente de relações de corrupção, de
desintegração e ausência de relações
humanas. Por outro lado, o avanço dos países socialistas,
a luta das massas do
mundo, as estimulam, influenciam e impulsionam o sentimento coletivo e
socialista da humanidade. As massas estudantis, em sua revolta contra o
sistema
capitalista, estão manifestando diretamente a influência
da revolução mundial
sobre elas, expressada em formas de sentimento fraternal, coletivo e
socialista. Mesmo que não formulem politicamente através
de um programa
socialista, de partido, de objetivos e táticas socialistas,
estão impulsionadas
por tais sentimentos. Não são ganhas pelo sentimento
capitalista, mas pelo
socialista. Se fossem atraídas pelo sentimento capitalista, de
confiança na
técnica atômica, na perspectiva capitalista, o capitalismo
já as teria
organizado, como fez
A revolta dos estudantes na
França (1968) é contra a política
conservadora, conciliadora com o capitalismo, mas sem a
consciência do
programa, dos objetivos, da tática. Saem a manifestar a sua
vontade
revolucionária e a rechaçar a política
conciliadora. É preciso desenvolver a
consciência e a luta pelo programa
anti-capitalista, de expropriação, de planificação da produção. A defesa de um
programa escolar através do qual os estudantes desenvolvam estudos de
construção de casas, serviços de saúde, de obras sanitárias, de eletrificação,
estradas e de produção social. É preciso que os estudantes proponham planos
para isso. O estudo deve ser para aplicar imediatamente: a física, a química, a
medicina, a eletricidade, tudo em benefício das massas; veículos, transportes,
casas em função das massas. Afinal, qual é o objetivo da cultura? Beneficiar a
humanidade. Essas são as atividades que devem ser feitas já, discutindo e
chamando os sindicatos a intervir em função desse plano. Há que levar adiante
tais planos mesmo contra a vontade das direções e ir constituindo direções que
os apóiem. É necessário que todas essas discussões sejam feitas acompanhadas
por posições concretas, por medidas objetivas sobre os problemas da cultura, da
ciência, da arte, e dos estudantes; e a cada passo concreto, desenvolver um
programa segundo o país.
Esta greve geral
revolucionária da França foi tomada em todo
o mundo como um centro de orientação; muito mais para os
estudantes do que para
o proletariado. Porque este está mais sujeito, mais submetido
às suas
organizações sindicais. Enquanto que os estudantes
têm mais liberdade; e,
anteriormente, estiveram em piores condições que o
proletariado. E isso deu um
impulso para a organização do movimento estudantil. A
repercussão da luta
revolucionária e socialista das massas do mundo sobre as lutas
estudantis já
indica que toda a sociedade está questionando o capitalismo.
O movimento estudantil
no mundo após 68
Essa luta na França teve
uma repercussão imediata e influiu
no ascenso das lutas das massas do mundo. Um dos ecos mais importantes
foi no
Chile. Aí os estudantes conquistaram a paridade quase completa
na direção da
universidade, o direito de um terço a um quinto, inclusive na
determinação do
currículo; eliminaram uma série de travas ao
funcionamento do movimento
estudantil e da sociedade.
A greve geral
revolucionária e a mobilização dos estudantes
na França serviu para a unificação, a
organização e o avanço do movimento
universitário mundial, mas também, para dar um programa.
Na maioria dos países
onde o movimento universitário se desenvolve, o faz com base em
um programa que
já não é o da reforma universitária.
É infinitamente superior. Já se questiona
a direção capitalista. Por isso em todos os países
onde as lutas estudantis
continuam se desenvolvendo, elas não se limitam simplesmente ao
campo do
estudo, à defesa de pontos como a necessidade do estudo
prático da anatomia ou
de eliminar os padres das escolas. Ao contrário, os padres agora
vão à
universidade para apoiar a revolução social
anti-capitalista. E os estudantes
exigem a direção coletiva da universidade; ou seja,
questionam a direção
capitalista, impõem a direção coletiva, o
currículo decidido por eles mesmos, a
eleição de professores, a eliminação de
exames vestibulares e de graduação, o
fim da seleção e a abertura da escola à
população. Estão questionando algo que
o sistema capitalista não pode conceder; não pode aceitar
uma maior quantidade
de alunos, ao contrário, tem que eliminá-los; não
pode suportar maior
investimento, mais verbas para construir mais salas de aula, mais
centros,
aperfeiçoamento dos meios técnicos, melhores
condições de estudo, melhores
meios científicos de estudo, e a renovação de todo
o sistema de ensino; não
pode aceitar um sistema de ensino moderno, que demonstre que o ser
humano tem
uma potência inesgotável (incluindo nisso a moderna
cirurgia cardíaca), e que
não há nada que não possa ser alcançado com
a organização coletiva da
sociedade. Os estudantes questionam a direção, o futuro e
a própria existência
do capitalismo.