A formação do estado palestino e o processo mundial.

J. Posadas19 - de fevereiro de 1978

APRESENTAÇÃO

Publicamos este artigo de J. Posadas, escrito em 1978, em que analisa a questão do Estado Palestino, dado que a cada momento em que a luta de classes das massas palestinas estoura contra a máquina bélica do Estado israelense, este tema reaparece imperiosamente. Evidentemente, o texto foi escrito em outras condições da história, onde a existência da URSS e 14 outros Estados operários, oferecia outras relações de força para a própria luta dos palestinos. Mesmo assim, o programa para a constituição de um Estado palestino permanece vigente, ainda que o colapso da URSS tenha causado enorme impacto negativo sobre o processo revolucionário mundial.

Saudamos comovidamente as massas palestinas, as mães, os jovens, os adolescentes "Davis" da Intifada que invertem a estória bíblica da luta vitoriosa da razão e da inteligência contra a força bruta da prepotência e supremacia do Golias, hoje representada por Israel. Diante de semelhante aparato bélico imperialista, não existe outra alternativa senão lutar com a arma guiada pela inteligência da política revolucionária e transformar cada pedra atirada pelos palestinos num programa revolucionário! Em todos estes anos se demonstrou que o objetivo patriótico de um Estado nacional-burguês palestino, que queria e quer envolver a burguesia árabe e a social-democracia na defesa da própria independência, tem os seus limites, dado que a burguesia árabe está economicamente mais interessada no Estado israelense do que num possível Estado palestino, que será além de tudo fortemente empurrado pela energia revolucionária das próprias massas.

Desta vez, a revolta das massas estourou sobrepassando a direção palestina; dentro dela se encontram Khaled Salam, conselheiro econômico de Arafat, ou homens de negócio como Mohammed Rashid, que são sócios com 30% de lucros dos grandes cassinos de Jericó e com contas em Bancos estrangeiros, que com forças militares próprias tentam desviar e conter as forças mais combativas e resolutas.

Para que a Autoridade Nacional Palestina se transforme em Estado, è necessário lançar com força um programa de transformações sociais que envolva todas as massas exploradas palestinas, jordanianas, sírias, egípcias ou iraquenas, árabes em geral, mas dirigindo-se também aos pacifistas, os intelectuais, os sindicalistas,os técnicos e as massasde Israel , numa perspectiva de desenvolvimento de toda a zona. É preciso aliar-se com outras forças estatais que se movem na zona, como a iniciativa russa de restabelecer vôos para Bagdá, rompendo o cerco imperialista ao Iraque, e com o próprio Iraque que com a recente proposta de "petróleo em troca de euro" trata de alargar a fenda criada na couraça do imperialismo. Junto à proposta de envio de tropas da ONU, que será combatida de qualquer modo pelo imperialismo americano, è necessário que o movimento e a direção palestina se mova e se dirija a todas as massas, para ganhar tempo e lutar com o objetivo de criar uma Federação dos países árabes para sair deste turbilhão de um verdadeiro genocídio de classe. Este programa tem bases para encontrar eco e respaldo, dado que a luta de Intifada e a impunidade imperialista já tem comovido o mundo inteiro que tem se mobilizado com grandes manifestações em solidariedade aos palestinos, construindo bases para elevar forças na perspectiva de uma grande frente-única com processos ativos em todos os países, até mesmo na Russia e na China, onde apesar de todos os retrocessos e golpes recebidos, mantêm-se no seu interior forças que se preparam para uma perspectiva de enfrentamento e guerra contra o imperialismo.

Na proposta de criação de um Estado Palestino está colocado sob uma nova forma o problema palestino. O problema já não se encara como antes, de que "judeus e palestinos têm os mesmos direitos de viver". Agora se coloca levando em conta o conjunto da luta de classes, onde os palestinos têm que enfrentar seja os árabes como os judeus unificados em forma reacionária para impedir o progresso da história. Não são os mesmos problemas do passado. A atitude da Síria é oscilante. Assad (presidente sírio falecido recentemente) foi tão reacionário quanto Begin, e não se exclui que volte a fazer o mesmo. A tendência de todos eles é unificar-se diante do perigo objetivo de serem superados pela luta revolucionária. Assad um pouco menos, mas muito mais Sadat. Porém, todos eles têm algo em comum, como o tiveram antes. Por isso, todos estes países têm relações que são rompidas às oito da noite retomadas às seis da manhã seguinte. Retiram o embaixador, mas antes de retirá-lo, ele já está de volta.

O problema, então já não se coloca como antes. Porém, os palestinos contam com as tendências nacionalistas burguesas, mas bem de esquerda como na Arábia Saudita, no Kuwait. Logicamente, nós também contamos com isso, mas consideramos que a colocação pura e simples do "Estado Palestino" não é a forma de resolver o problema. Um pequeno Estado Palestino tem que ter como mínimo, o direito à autodeterminação, às liberdades democráticas, a dirigir-se às massas judias. Portanto, na etapa atual trata-se de unir os palestinos com as massas judias e árabes. Chamar a esse objetivo com a paciência de esperar, porque senão serão superados.

O Oriente Médio vem a ser o que eram os Balcãs de antes – na época dos reis era esse mesmo tipo de briga na qual o capitalismo instigava isto para que nenhum deles dominasse, que ninguém o transformasse num grande país dominante - mas agora eles são Estados operários. Que mudança! Antes, qualquer progresso, o da Etiópia por exemplo, teria sido impedido imediatamente. Ao passo que hoje, não o podem fazer. O caso do Iraque, teriam resolvido há muito tempo.

Nós propomos um Estado Palestino, mas ao mesmo tempo um chamado às massas de Israel e às massas do resto do mundo árabe, mostrando que um Estado Palestino é totalmente instável. Não há lugar para o desenvolvimento histórico de um Estado Palestino. É preciso colocar em forma muito mais elevada e extensa o problema palestino. Porque agora têm pela frente a reação árabe e a unificação da reação árabe e judia, de Israel. Têm que enfrentar isso. Então, o pequeno movimento de Arafat será aplastado e não terá campo de ação, e será um engano para as massas palestinas crer que pode ter solução. Então é preciso discutir com os palestinos.

Tudo isso está unido à luta pela libertação do sionismo, do imperialismo e da burguesia árabe. Não se trata de se submeter esperando até que as coisas mudem, mas de verificar em que condições viverá o Estado Palestino. Ele pode ser um centro, de acordo. Nesse caso, então, este centro tem que estar unido sobretudo à Argélia, e mesmo a outros países árabes como a Síria, sempre que permitam o desenvolvimento das lutas para o progresso; caso contrário, ficará morto. Não tem sentido um novo Estado para competir com o sistema capitalista. Um novo Estado para uma nacionalidade palestina que não tenha como objetivo eliminar o capitalismo no Oriente Médio, não tem nenhum objetivo, nem transcendência, nem tem possibilidade de viver.

É preciso discutir estas conclusões. Mesmo no caso da Frente Polisário, qual é o seu objetivo? Transformar-se num grande país? Para que se faça um grande país, tem que se desenvolver economicamente e competir com os demais países, e não tem perspectivas. O nascimento destes países no lôdo em que se afunda o sistema capitalista já não se coloca como antes, mas unido a esta condição histórica de que se aproxima a guerra, estimulando as condições para que se possam unificar e desenvolver-se como Estados operários. Portanto, a organização como Estado independente deve servir a este fim; é necessario criar uma corrente que tenha a capacidade política de orgarnizar-se para este fim, e não para constituir-se apenas como uma nova pátria. Não há sentido histórico, nem objetivo, nem condições para desenvolver econômica nem socialmente e, nem mesmo em termos linguísticos. É muito importante fazer estas considerações, sobretudo quando se leva em conta que o capitalismo está se preparando para a guerra.

Em várias análises feitas pelos palestinos, notam-se considerações patrióticas, territoriais, mas falta a consideração histórica que supera todos os interesses e condições territoriais ou linguísticas, religiosas, seja árabe ou judia. Porque o que propomos é encarar os problemas desta etapa da história, que não são os mesmos que se colocavam antes. É preciso discutir com os companheiros para elevá-los à convicção de que as direções políticas cortam, limitam, evitam esta discussão, e colocam a pátria, o destino, o país como um centro. Perguntamos: em que condições faremos um país? E para quê? Pode ser conveniente do ponto de vista da dificuldade que se cria para a intervenção do capitalismo. Mas, por outro lado, a burguesia árabe projeta seu próprio fortalecimento e criação uma camada burguesa que afoga todos os demais. Não existe possibilidade para um desenvolvimento, nem da Palestina, nem da Jordânia, nem da Líbia, nem da Síria, nenhuma possibilidade nem como países independentes. É preciso desenvolver análises e textos levando à conclusão sobre a etapa na qual se dá este processo, porque senão termina-se apoiando em sentimentos patrióticos, religiosos, nacionalistas árabes e a coisa morre aí. Que função teria tudo isso? O tema requer uma discussão mais profunda. Pode-se passar por uma etapa dos palestinos, "pátria palestina", mas é preciso haver uma direção para unificar o processo sobre uma base econômica que permita desenvolver o país, caso contrário, é viver na miséria. Nestas condições, um pequeno núcleo burguês domina tudo, completamente. É preciso discutir, de forma combinada, a elevação da cultura das massas e a intervenção direta; não primeiro a cultura, e depois a intervenção, mas sim, cultura e intervenção ao mesmo tempo! Portanto, criar as possibilidades para que as massas tenham tempo de intervir e desenvolver correntes, tendências preocupadas por este problema.

Para quê serve a pátria palestina? Para satisfazer a 72 palestinos, ou a mil, ou será que serve para elevar a vida de todos os palestinos? É algo que cai na inutilidade se não eleva a vida dos palestinos. Ou seja, é mais ou menos como o problema dos indígenas Quechuas e Aymarás na Bolivia; não é a mesma coisa, mas é mais ou menos o mesmo problema. Não existe campo para uma nacionalidade Quechua ou Aymará. Deve-se levar em consideração o problema da língua, mas como um meio para um passo posterior. Assim fizeram os bolcheviques na primeira etapa, que unificaram as 32 línguas numa só: a União Soviética. Lá, qualquer pessoa pode falar a sua própria lingua, mas a que comunica e transmite a necessidade de progresso é a lingua soviética.

Estes são problemas novos que devem ser discutidos e aprofundados, mas esta é a linha. Os problemas táticos podem diferir, mas esta é a linha geral. O Kuwait, por exemplo, tem uma quantidade muito pequena de habitantes dentre os quais apenas 4 ladrões que comandam. Importam água, quando com a riqueza que têm poderiam transformar o oceano em água potável. Por outro lado, têm carros onde apertam um botão e o café, o chá, a comida, enfim, tudo é servido. E as massas não tem água! É preciso discutir tudo isso.

Não somos contra o Estado palestino, mas é preciso explicar a que deve servir. Se é para fazer uma "grande pátria", já não tem sentido; sobretudo, esperar isso de um grande deserto, do qual lhe darão as piores terras. Pode-se, mesmo assim, utilizar a reivindicação como um meio de desenvolver um centro de unidade da luta das massas árabes, para buscar a unificação com as massas israelenses contra o sistema capitalista. Isso não pode ser feito através do Estado Palestino, tem que contar com os outros países árabes. Isso deve ser claro. Haverá uma resistência porque alguns dirigentes o propõem com um sentimento patriótico completamente sem sentido, desacompanhado de um programa para resolver o problema do baixo nível de vida das massas, como se a pátria fosse resolver tudo. A pátria não lhes dá nada, lhes dá uma "Arizona".


J. Posadas

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