
A função das prefeituras de esquerda e as dívidas sociais.
O crescimento dos votos de
esquerda nas últimas eleições municipais, especialmente a
vitória da esquerda em várias capitais e em regiões de alta
concentração populacional apontam a existência de condições
para a aplicação de programas que envolvam diretamente as
massas exploradas e tenham como objetivo fundamental o pagamento
das dívidas sociais acumuladas historicamente. As massas sempre
foram preteridas e é inadmissível que o sejam novamente em nome
de critérios ideológicos como eficiência ou equilíbrio
financeiro.
As prefeituras de esquerda devem ser um laboratório de
experiências que desenvolvam a aliança do poder público com as
massas exploradas, através de associações de moradores,
movimentos de sem-teto, sindicatos, movimentos culturais, a
igreja progressista etc na aplicação de programas que atendam
prioritariamente os setores mais penalizados pelos efeitos
perversos e monstruosos do capitalismo no município.
Ao mesmo tempo, além da limitação e do alcance de uma
administração municipal, novos problemas surgidos com o
agravamento da crise do capitalismo tenderão a impor
limitações adicionais aos prefeitos de esquerda. Praticamente
todos os municípios estão fortemente endividados. Os prefeitos
dispõe de limitações orçamentárias imensas, ampliadas
recentemente através da Lei da Responsabilidade Fiscal que nada
mais é que uma linha de enxugamento dos gastos sociais para que
os recursos disponíveis sejam direcionados fundamentalmente ao
pagamento dos serviços das dívidas. Ou seja, são armadilhas
financeiras através das quais a burguesia, sob o falso argumento
da responsabilidade fiscal que ela nunca praticou - hoje 75 por
cento do orçamento nacional destina-se ao pagamento dos
serviços das dívidas em fase de explosão - tenta colocar uma
camisa-de-força nos prefeitos para impedir a aplicação de
projetos populares audazes e de fôlego.
Em primeiro lugar, é preciso que se revele o caráter
ideológico das propostas de saneamento fiscal. Grande parte do
esforço da administração da Erundina em São Paulo, por
exemplo, foi para sanear as finanças da prefeitura. Derrotada a
administração petista, seu sucessor, Paulo Maluf rapidamente
tratou novamente de arrombar as contas municipais. E como? Hoje a
Prefeitura Paulista tem uma dívida superior a 20 bilhões, e as
dívidas externa e pública estão absolutamente fora de
controle, manipuladas diretamente pelo sistema financeiro. A
escolha de um secretário ligado ao sistema financeiro, as
declarações de Marta Suplicy definindo grande importância ao
equacionamento destas dívidas, pode significar uma linha de
prioridade ao saneamento financeiro em detrimento do pagamento
das dívidas sociais com as massas pobres, esta sim a grande
prioridade de qualquer prefeito popular ou de esquerda! Ou seja,
a burguesia cobra da esquerda uma probidade fiscal que ela nunca
praticou e só se lembra disso quando surge a oportunidade
política para que prefeitos de esquerda invistam pesado no
social, em obras contra enchentes, na construção de creches,
escolas e hospitais nos bairros pobres, em iluminação pública,
saneamento básico, cuja ausência coloca grandes municípios
brasileiros aos níveis da África e explicam a existência desta
pena de morte em vigor que é a mortalidade infantil. As dívidas
sociais que o capitalismo tem para com as massas exploradas é
tão imensa que até mesmo um maior endividamente se justificaria
desde que exclusivamente destinado a atender as necessidades da
população pobre. A burguesia fará histérica campanha, claro,
para esconder que sempre se endividou para permitir a odiosa
acumulação de capital e privilégios nas mãos exclusivamente
dos ricos. E agora querem que as massas sejam novamente
penalizadas para o pagamento da dívida que beneficiou
exclusivamente a burguesia. Esta não é uma discussão técnica.
É político-ideológica.
A tentativa de explicação por parte de segmentos da esquerda de
que "temos que administrar para todos", ignora que não
são todos os que sonegam impostos, que não são todos os
bairros que recebem prioridade nas obras de urbanização. Sempre
houve um privilégio para as classes ricas, sempre houve
tolerância com a sonegação, sempre houve prioridade nas obras
que beneficiavam as classes mais ricas.
Declarações de dirigentes de esquerda de que a privatização
não é uma questão de princípios, ou admitindo vender certos
patrimônios públicos até agora inacessíveis à população
pobre, revela uma adaptação à pressão da burguesia, ávida
por ampliar seu patrimônio, e segura de que pode receber
financiamentos com recursos públicos para "comprar"
esses bens. Neste caso, a privatização termina por ampliar o
endividamento.
A formação de mecanismo que recebam e dinamizem a intervenção
organizada das massas, muito mais além do Orçamento
Participativo que alcança apenas um montante residual do
orçamento, deve ser uma prioridade. Com a participação direta
das massas pobres, surgirão iniciativas criativas, haverá a
historicamente generosa capacidade dos explorados de se superar
pois sentirão que, apesar dos alcances limitados, esta é uma
prefeitura sua, e saberão defendê-la das inevitáveis pressões
da burguesia na sua insaciável voracidade por mais privilégios
e riqueza. Assim, as prefeituras de esquerda podem tornar-se uma
grande escola de cidadania, de educação política, capaz de
revelar que os problemas não podem ser resolvidos em sua
totalidade no município e que são necessárias transformações
sociais amplas. O aprendizado pode começar no município.
As experiências de algumas administrações petistas, como em
Brasília, até hoje não tiveram um balanço equilibrado pelo
PT. Uma das explicações para a derrota está na própria
anulação da função política do partido na administração.
Não devem ser os administradores a darem a última palavra, caso
contrário, as pressões inerentes da estrutura administrativa do
capitalismo acabam impondo sua racionalidade e sua lógica, que,
longe de serem técnicas ou objetivas, também são ideológicas.
As prefeituras de esquerda podem apoiar as vocações econômicas
naturais de cada região para impulsionar a formação de
cooperativas que absorvam os desempregados. No litoral,
cooperativas de pescadores, com frigoríficos financiados pelo
município. Ou de catadores de castanha de caju. Cooperativas de
catadores de papel, de material de lixo reciclado. Cooperativas
de produção de material de construção aproveitando-se os
materiais de cada região. Parcerias com as massas pobres na
construção de açudes para estímulo à criação de peixes.
Estímulo à criação de cabras para a produção de leite
visando enfrentar a desnutrição crônica.
Além disso, podem ser feitos acordos com Cuba para
aproveitamento de médicos, desportistas e medicamentos cubanos.
Ou com a China para a utilização em larga escala da acupuntura
e da fitoterapia já que o Brasil possui a maior "farmácia
a céu aberto do mundo".
E muita vida política e cultural. Um ciclo popular de cinema,
atualmente inacessível às massas pobres, adaptando escolas ou
auditórios ociosos do município. O município pode apoiar o
desenvolvimento da comunicação comunitária, massificando a
leitura de jornais, definindo um plano para o combate ao
analfabetismo através de uma parceria com as Universidades e o
Movimento Estudantil. Cinema nas praças, teatro nas ruas e nas
fábricas, produção em massa para distribuição gratuita de
livros com o melhor da literatura brasileira e universal,
bastando para tanto utilizar a imensa capacidade ociosa das
gráficas do município. Enfim, com ampla participação popular,
as massas mostrarão sua objetividade, desenvolverão iniciativas
criativas e defenderão a administração com sua. Mas é
fundamental que os prefeitos tenham a decisão de enfrentar a ira
da burguesia que jamais admitirá que programas populares como
estes ou outros sejam aplicados, porque não quer perder o
monopólio sobre o uso das verbas públicas para suas
prioridades. As prefeituras de esquerda podem enfrentar esta
lógica e isto será imensamente educativo para a politização
das massas!
18.12.2000