
O 4º Congresso do MST, o seu "Projeto popular" e a perspectiva para as forças de esquerda no Brasil.
É necessário que todas as forças da
esquerda brasileira façam uma reflexão sobre o recente 4º
Congresso do MST. A experiência vivida nestes seus 15 anos de
vida conduziu o MST a um amadurecimento político, ideológico e
organizativo que devem servir de chamado à toda a esquerda
tradicional do país, a todos os setores progressistas,
religiosos, militares e civís sensíveis às grandes causas da
humanidade oprimida e do povo brasileiro em particular. Este
Congresso expressa este amadurecimento, e é dever nosso relatar
alguns dos pontos mais relevantes discutidos:
O MST caracteriza-se como uma vanguarda revolucionária
consciente, e se dá uma estrutura, funcionamento e projeto
político de amplo respiro, para elevar o nível da luta de
classes no país, a partir da luta pela terra e pela reforma e
revolução agrária. Dirige-se aos outros setores da sociedade,
sobretudo ao proletariado urbano, às camadas da pequeno
burguesia simpatizantes da sua causa, para estabelecer uma
plataforma mais ampla de luta, com o objetivo de construir o que
eles chamam um PROJETO POPULAR PARA O BRASIL, conscientes de que
só a luta pela terra e pela transformação social no campo não
podem transformar a nação no seu conjunto, e que pelo
contrário, só pode se realizar se todo o país for transformado
no sentido de uma sociedade socialista.
A escola do MST é a escola da luta de classes: a ocupação das
terras foi a base. A consciência que somente a distribuição e
posse das terras não leva a qualquer solução numa sociedade
capitalista, conduziu o movimento à conclusão lógica da luta
pela transformação mais geral, a da luta pelos socialismo, a
planificação da economia e dos recursos em benefício da
maioria da população, a promoção da justiça social e da
distribuição das riquezas, rechaçando os modelos impostos ao
país pelo imperialismo antes e hoje, nesta fase da chamada
"globalização" que nada mais é que a submissão
completa aos projetos de dominação mais deletérios, que estão
devastando os países mais pobres e oprimidos do globo terrestre
e conduzindo à barbárie toda a humanidade.
Neste seu percurso o MST recupera os valores, a ideologia e as
experiências mais importantes da esquerda a nível mundial:
recupera o melhor produzido pela intelectualidade marxista,
recupera os textos clássicos do marxismo, a experiência das
revoluções e de seus líderes mais notórios, o heroísmo dos
mártires. Une Jesus Cristo a Carlos Marx, o padre Josimo a
Carlos Marighela, Lenin e Clara Zetkin a Paulo Freire, entre
outros, na sua "galeria dos heróis". Mas não é uma
iconografia passiva, pois o objetivo é revolucionário, é
recuperar todo um patrimônio da humanidade aparentemente
soterrado pelo terremoto da queda das URSS e do sistema de
países socialistas, indo além deste, buscando rrevieworizar o
pensamento e a ação transformadora que estes pensadores e
organizadores, religiosos ou militantes, a seu modo
representaram. Da união destes símbolos, o que prreviewece são
as idéias, política e programa anticapitalistas que o movimento
exprime.
Buscam recuperar também a cultura, a arte, a tradição de luta,
reivindicando com orgulho as raízes do povo brasileiro, na
riqueza da sua constituição pluriétnica, na denúncia dos
crimes perpetrados nos seus 500 de história pelas elites
dominantes, na reconstrução das rebeliões populares.
Assumem a luta em defesa do meio ambiente como própria e
essencial causa, como homens que vivem na e da terra, que
respeitam e amam os seus recursos, os seus dons, e repudiam os
crimes ambientais cometidos pela expansão capitalista, as
multinacionais com os seus transgênicos e agrotóxicos, e a
monocultura danosa ao ecosistema.
Transformam peões e lavradores, ou setores marginalizados da
periferia das grandes cidades, muitas vezes tendo que
alfabetizá-los, em militantes, quadros e dirigentes. Incorporam
as mulheres, as crianças e os anciãos à atividade, à
produção, à luta e à preparação militante para a luta de
classes e para a construção de novas relações sociais de tipo
comunitário, socialista. Dedicam horas à chamada
"mística" onde recuperam um espaço de expressão
artística, cultural e ideológica, induzindo à reflexão, à
meditação e à organização dos sentimentos de um povo para
que em cada momento esteja viva, sinta e compreenda o sentido
mais profundo da luta e das conquistas. Cada caboclo -
rigorosamente desprezado pela sociedade capitalista - pode se
sentir um criador, um artista, um ator, um protagonista. Cada
ação de luta, cada ação de produção, de organização, cada
conquista tem um sentido de elevar o ser humano, não amanhã,
mas agora mesmo, como propunha o Chê Guevara nos seus escritos
econômicos.
Apóiam-se nas melhores tradições revolucionárias e levantam o
estandarte da Cuba Socialista como exemplo de povo vitorioso
contra o imperialismo, e se nutrem das experiências deste país,
para lá enviam os filhos dos sem-terra para estudar medicina
gratuitamente ou para outros cursos de formação. Che Guevara é
para todo o povo dos sem-terra mais que um ícone da moda, é um
exemplo de luta, organização e moral. Procuram promover a
igualdade de gênero, o respeito pelas gerações, a fraternidade
e a solidariedade como prática comum e natural, combatendo a
brutalidade das relações determinadas pela opressão, os
resquícios do passado da miséria e da exploração.
Este movimento está revolucionando, sem desprezá-la, a
história da esquerda brasileira. É preciso que as outras
forças de inspiração socialista, nacionalistas progressistas,
os sindicatos e várias organizações compreendam e tomem
posição frente a este novo e crescente fenômeno.
O MST não está fechado para nenhuma iniciativa de luta no meio
urbano, e tampouco se propôs em seus objetivos disputar a
hegemonia ou o lugar aos partidos da esquerda ou aos sindicatos:
simplesmente colocou na ordem do dia as urgentes prioridades do
povo brasileiro em termos de transformações sociais: terra,
casa, alimentação, educação, saúde. Não o fez como
exigência abstrata, como lista de reivindicação ou
abaixo-assinado, mas como movimento real na sociedade real,
usando o instrumento da luta de classes, da recomposição, em
certo sentido, de uma classe camponesa dispersa e desesperada,
marginalizada pelo grande capital.
A QUESTÃO CAMPONESA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO CAPITALISTA
A "questão camponesa" do Brasil já se apresenta com
outras características, muito diferentes do passado: da mesma
forma que já não se pode mais falar só de estrutura agrária
arcaica, de coronelismo, devido à invasão capitalista do campo
e até mesmo à "financeirização" e
internacionalização do uso e especulação com a terra no
Brasil, como não constatar que o camponês brasileiro, na sua
consciência, tenha dado um "salto dialético" para
buscar relações de produção e de propriedade diversas das
soluções propostas no passado, que de todas as formas ficavam
no âmbito do capitalismo e reproduziam, ao final, as mesmas
relações de exploração, reconcentração e fracasso das
pretendidas transformações sociais?
O MST refletiu sobre tudo isso, e não vê outra saída que a
construção de uma sociedade socialista: e tem profunda razão,
e mais que isso, a audácia de levantar esta bandeira
abertamente, chegando a contestar solenemente o direito à
propriedade privada da terra. E conta com o firme apoio dos
primeiros interessados, os trabalhadores da terra! Já não
estamos em 1905, frente ao mujique russo recém libertado das
relações feudais, estamos no ano 2000, tendo vivido um século
de revoluções sociais e experiências socialistas que duraram
algumas 70 anos, outras que persistem, em uma fase de opressão
capitalista sem precedentes e assustadoramente
"moderna" que leva milhões e milhões de seres humanos
a sobreviver pior que ratos nas periferias das grandes cidades,
enquanto que um país como a China consegue alimentar e dar vida
digna a 1 bilhão e meio de pessoas, apesar de todas as
distorções derivadas das reformas de tipo capitalista?. Houve
quem dissesse, na esquerdas, que conceitos como "luta de
classes" ou "imperialismo" eram já obsoletos, e
que havia que buscar outras "vias". Estas terminaram no
vazio, na liquidação das conquistas sociais nos próprios
países capitalistas mais avançados da Europa ocidental, e
finalmente na guerra contra a Iugoslávia, para preanunciar
aquilo que deveria "um milênio de paz".
O MST mostra com clareza terminante, seja pelos próprios
mártires, seja pelo que já tem construído em termos de
dignidade nos seus assentamentos e acampamentos, que aqueles
conceitos são mais atuais que nunca. Este movimento com raízes
na terra levanta também a bandeira do interesse nacional, da
"pátria", entendida como sociedade justa, livre da
intervenção imperialista, e que protege e defende as suas
riquezas para o bem comum.
Os posadistas FAZEM UM CHAMADO A TODAS AS FORÇAS DA ESQUERDA
BRASILEIRA A INCORPORAREM-SE A ESTA MARCHA! Tudo aquilo que
reivindicou a esquerda no passado, nos seus melhores momentos, as
suas melhores tradições, programas e propostas, estão neste
momento incorporados nas propostas do MST e foram claramente
expressadas no seu 4º Congresso. O Projeto Popular para o Brasil
é uma proposta aberta, apresentada em todas as praças, ruas e
localidades por meio da ação do MST, da Consulta Popular, deve
ser o resultado de uma construção coletiva.
A AUSÊNCIA DE LULA DO CONGRESSO DO MST É GRAVE ERRO !
Seria um erro que os outros setores da esquerda disputassem a
hegemonia do movimento de massas com o MST, e tanto mais os
sindicatos. A ausência da CUT e de outros sindicatos neste
Congresso deve ser discutida nas suas bases, pois é
incompreensível para os próprios trabalhadores e não só
aqueles do campo. Mesmo que tenha havido presenças individuais
de alguns de seus membros, a CUT como tal não apareceu, e isto
é injustificável. A tímida participação do PT e a ausência
do seu líder mais popular e respeitado, o Lula, permanece uma
incógnita para esta massa de militantes que ainda espera e
deseja que este partido cumpra um papel fundamental na próxima
etapa. A imprensa burguesa registrou a presença do presidente
honorário do PT em Brasília para encontrar o presidente
recém-eleito do México, o Fox, no mesmo dia em que o Lula
deveria ter-se apresentado no congresso do MST, como o próprio
presidente do Partido, José Dirceu, havia anunciado.
Poderia-se supor que o Lula ou não compareceu para não assumir,
frente ao eleitorado moderado, uma postura de apoio a um
movimento abertamente revolucionário ou radical. Isto seria um
duplo equívoco: primeiro, frente ao fato que o próprio MST tem
apoiado os melhores candidatos da esquerda ou progressistas nos
processos eleitorais. Uma boa parte da militância e mesmo dos
quadros do MST é afiliada ao Partido dos Trabalhadores ou outros
partidos progressistas. Muitos intelectuais e dirigentes do
próprio PT apóiam e trabalham para o MST, sustentam as suas
lutas, contribuem para o seu crescimento. Ou seja, o PT só tem a
se beneficiar com o MST, com o seu avanço e as suas lutas,
porque faz avançar o processo político pela esquerda. Mesmo no
PT tem-se refletido sobre o fato que suas bases estão
desanimadas, ou excessivamente dependentes de mecanismos de
participação na administração pública ou em processos
eleitorais. A participação na lutas sociais tem decrescido na
proporção direta do seu crescimento eleitoral e institucional.
Alguns dirigentes do PT crêem que este é um processo
"natural" no caminho do partido para o governo (que
supõem erroneamente ser o poder).
O que hoje pode parecer uma qualidade, amanhã pode comprometer
definitivamente os objetivos declarados do partido, de
transformar profundamente a sociedade brasileira num sentido
socialista. O presidente do PT numa entrevista, afirma: "o
PT nega que o socialismo seja a socialização dos meios de
produção, o controle operário e a planificação. Mas o PT é
um partido anti-capitalista, é um partido que não vê no
capitalismo o fim da história nem a solução para os principais
problemas colocados pela humanidade. O PT luta por um sistema,
por uma reorganização da sociedade, a partir dos valores do
socialismo." Só que os "valores do socialismo"
não podem ser defendidos em abstrato, sem a socialização dos
meios de produção. Nem pode haver distribuição de renda, nem
solução para problema algum no Brasil, só com base nos
"valores", sem tocar a estrutura da propriedade. Entre
o capitalismo e o socialismo, não existe modelo algum de
sociedade. Esta ambiguidade de declarar-se pelos
"valores" do socialismo mas pela aceitação (na
prática) da economia capitalista, foi a que levou à nova virada
à direita da social-democracia européia.
A experiência atual de alguns governos social-democráticos
europeus podem servir de experiência, e destas, a mais
significativa é a do ex-Partido Comunista Italiano, transformado
em 91 em Partido Democrático da Esquerda e posteriormente em
"Democráticos de Esquerda". Este partido foi ao
governo da Itália em 1995 numa coligação com outras forças
desprendidas da velha Democracia Cristã, socialistas, verdes e
outros grupos, no que foi caracterizado como o governo de
centro-esquerda. Neste período a Itália entrou a formar parte
com plenos poderes da União Européia, aplicando exemplarmente
os seus parâmeros neoliberais, baseado em cortes aos gastos
públicos, aniquilamento da estabilidade no emprego e outras
conquistas trabalhistas, desmonte da previdência social como ela
tinha sido conquistada em décadas de lutas do movimento
operário. Estas políticas prosseguiram sem cessar, levando o
movimento operário popular de derrota em derrota. A lista de
desmandos seria enorme, mas é suficiente dizer que esta
conversão ao liberalismo levou ao plano apoio à guerra da OTAN
contra a Iugoslávia. A "esquerda" no poder aplicou com
afinco e pontualidade programas que jamais as forças de direita
tinham sido capazes de aplicar, por medo às convulsões sociais.
Há políticas que só forças "de esquerda" podem
aplicar, por contar com o consenso social necessário, pelo menos
enquanto governam. Na Itália, devido a esta expectativa que os
homens "de esquerda" defenderiam os interesses dos
trabalhadores, chegou-se a atingir o mínimo histórico de horas
de greves e de afiliação sindical. E trata-se do país que
"ensinou" através da imigração dos seus operários e
artesãos, o movimento operário brasileiro a organizar-se e a
defender seus interesses! Hoje a hipótese mais provável é que
as forças de direita voltem a governar, ocupando a "terra
arrasada" deixada pela "esquerda" de governo.
Toda a história ensina que esta perspectiva está profundamente
equivocada, e é responsável pelas maiores tragédias e pelo
abandono de todo e qualquer sonho de libertação. E adquire um
caráter mais grave ainda frente à devastação que a
globalização capitalista vem promovendo.
Os "democráticos de esquerda" também perseguiram o
"eleitorado moderado", e puderam obter assim uma
maioria exígua de votos. Mas ficaram prisioneiros deste
"eleitorado moderado". Suas bases sociais foram
minadas. A principal conclusão desta experiência é que a
principal força a esquerda é a mobilização da sociedade,
reforçar as lutas do movimento popular e operário, desenvolver
a luta de classes ao nível mais alto, porque não há solução
alguma, principalmente para um país com contradições sociais
tão colossais, fora da luta de classes e pelo poder popular. É
neste sentido que tem trabalhado o MST, no terreno da luta pela
terra. Mesmo que nos processos eleitorais sejam necessários
acordos, coalisões e certos compromissos, e justamente por isso,
a esquerda tem como única garantia o desenvolvimento da própria
força social, o que se consegue somente mantendo a coerência
dos objetivos programáticos e os métodos típicos dos
movimentos populares, que lutam pelo poder. Caso contrário o
"aliado", com todo o seu poder econômico, cultural e
de cooptação, inevitavelmente condiciona e determina na
aliança, para depois incorporar a esquerda "aliada".
É este o caminho que deseja trilhar o PT? Cremos que a sua
cooptação pelo sistema capitalista seria um desastre para o
país. A confusão entre "estar no governo" e o
"poder" é enorme. Por isso publicamos neste número de
RS extratos de artigos de J.Posadas sobre o Chile de Salvador
Allende e a contra-revolução que se produziu naquele país.
Reiteramos que teria tido enorme importância a presença do Lula
neste congresso do MST. A expectativa das suas bases era
imensamente favorável, os quase doze mil delegados provenientes
de todo o país teriam tomado esta presença como ponto de
força, para impulsionar o PT para adiante, ajudando o próprio
Lula a enfrentar a ala mais moderada do partido. E isto daria uma
força enorme ao movimento, que está arriscando o isolamento,
tendo lançado publicamente objetivos muito avançados de luta.
Onde está a divergência, a razão para não apoiá-lo? Afinal,
com sua luta, o MST pode dar novamente vigor, força e estrutura
militante aos partidos progressistas, e reativar todas as suas
bases populares. Pode inclusive reforçar eleitoralmente a estes
partidos. Pode impor novas relações de forças no país, pode
condicionar o Congresso Nacional, o próprio governo federal (que
em diversas ocasiões foi derrotado e teve que fazer concessões
ao movimento). Os orçamentos participativos, e mesmo as CPIs,
são instrumentos muito limitados frente à dimensão dos
problemas, e a absoluta oposição das classes dominantes a
qualquer transformação social mais profunda. O caso EJ e da
corrupção é simplesmente a ponta de um iceberg gigantesco, que
indica o conceito de "legalidade" vigente, que ao mesmo
tempo assassina, condena, aprisiona e persegue os trabalhadores
sem-terra. O governo das Medidas Provisórias e da subordinação
ao FMI já violou toda a "legalidade" e violou todas as
regras do jogo "democrático". Não é o MST que deve
ser colocado sob acusação por não respeitar as propriedades
dos latifundiários, aliás a sua ação tem plena legitimidade
conforme a própria Constituição. É por isso que todas as
forças políticas progressistas devem apoiar suas iniciativas
sem restrições. A ocupação simbólica das sedes públicas
nada mais é que um legítimo protesto político, aliás
abundantemente utilizado em todos os países democráticos do
mundo. Não faz nenhum sentido dissociar-se quando o faz o MST, a
sua ação é mais que legítima frente à fome e à miséria
vigentes no país.
ALIANÇA ENTRE MST, SINDICATOS, PASTORAIS RELIGIOSAS E MILITARES
NACIONALISTAS POR UM PROJETO POPULAR PARA O BRASIL
O MST é uma campainha de alarme, chama a atenção para esta
situação, faz um chamado a todas as forças sindicais,
progressistas e de esquerda, e inclusive os setores militares
indignados com o processo de desnacionalização da economia. O
MST radicaliza a sua proposta, se propõe a mobilizar mais e mais
forças sociais, a duplicar as ocupações de terras, sem deixar
cair as iniciativas transitórias e institucionais com a
apresentação de propostas de lei e a reivindicação da CPI
pela corrupção. Lança um apelo e estende a mão para todos os
movimentos populares; sabe muito bem que sem a ajuda dos
trabalhadores e das classe média das cidades, bem pouco pode
fazer para transformar o país, e se dispõe a colocar a sua
própria experiência a seu serviço. É natural que o acusem de
"invasão de campo". Mas a proposta da jornada de lutas
populares unificadas para o início de 2001 é muito clara:
representa um chamado a todas as forças de esquerda, a uma
frente única de sindicatos, partidos, organizações populares,
para reivindicar um PROJETO POPULAR PARA O PAÍS.
Mesmo cumprindo funções diferentes, os partidos de esquerda e
os sindicatos podem aliar-se ao MST na mobilização popular. O
novo líder eleito no recente congresso da CUT declara que o
sindicato não pode ocupar-se estritamente de interesses
corporativos e salariais, e que deve ocupar-se dos interesses
gerais da cidadania, do trabalhador enquanto cidadão. Pois com
mais razão o sindicato deve ocupar-se da luta pela reforma
agrária, pela distribuição geral da renda no país, e intervir
em todas as questões que reforcem a sua autoridade no conjunto
da sociedade: por exemplo, intervindo em todas as circunstâncias
em que a população pobre sofre calamidades, como as
inundações do nordeste, onde o próprio MST interveio com seus
próprios meios, para prestar ajuda de modo concreto e elevar a
politização da população mais pobre, que é aquela que sofre
as piores consequências de tais desastres. Muitas destas ações
podem exercer um efeito simbólico e profundo, para facilitar a
organização das forças populares. Por exemplo, a palavra de
ordem "ocupar, produzir, resistir" do Mst pode ser
aplicada nas fábricas sob ameaça de fechamento, ou já ocupadas
pelos trabalhadores. Tais fábricas podem produzir conforme as
necessidades dos assentamentos, criar laços de solidariedade com
os trabalhadores rurais. Unir estes movimentos àquele dos
sem-teto, aos atingidos pelas barragens e outros. Nada impede que
os sindicatos promovam estas ações, criando bases concretas
para uma aliança operário-camponesa. Ou então intervir em
questões fundamentais, de ordem mais geral.
Por exemplo intervir, junto com o MST e setores militares, na
luta contra a desnacionalização da Petrobrás, já em curso,
com a venda de 30 por cento de suas ações a especuladores
internacionais. Este é o maior golpe que está preparando - e
perpetrando - o governo do Fernando Henrique Cardoso depois da
"venda" da Vale do Rio Doce a preço de banana. A CUT
não pode deixar passar isto em branco, como não pode eximir-se
frente à série de "acidentes" ecológicos ocorridos
nas refinarias da Petrobrás, que evidentemente visam facilitar
aquela operação de desnacionalização: neste caso trata-se do
interesse nacional, que pode unir o PT, os ambientalistas,
sindicatos, MST, militares nacionalistas, a cidadania em geral.
Há que fazer como o Sindieletro de Minas Gerais, que opôs-se
com sucesso - e apoio popular - às manobras para a entrega do
controle da CEMIG aos americanos.
Nós chamamos a todas estas forças, e estendemos o chamado aos
militares nacionalistas, inquietos frente ao vergonhoso processo
de desnacionalização e de atrelamento do país ao poder
imperialista, a sustentar estes movimentos sociais, para impedir
por meio da mais ampla mobilização que este processo vá
adiante, para impor a distribuição das terras e da renda neste
país, para terminar com a barbárie, a fome, a violência e as
desigualdades sociais, derivadas do sistema capitalista e dos
seus "modelos" aplicados nas várias épocas
históricas no país. Isto inclui o desconhecimento da dívida
externa, a renacionalização de todas as empresas indevidamente
"presenteadas" ao capital internacional, a
programação da economia em função dos interesses populares, a
solução definitiva do problema da terra com a revolução
agrária, a coletivização, o máximo investimento na
educação, saúde e habitação, e na implantação de um
governo democrático e popular, baseado na mais ampla
participação direta por meio das próprias organizações de
massas.
26.8.2000