
A Arte de Van Gogh
(J. Posadas - 09.12.78)
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| Apresentação Esta página cultural do jornal "Revolução Socialista" tem por objetivo focalizar temas indispensáveis para a construção integral do militante, em boa parte abandonada por segmentos da esquerda que dedicam-se exclusivamente aos temas políticos. Os militantes devem ser formados como construtores de um mundo novo, compreendendo e assimilando todo o patrimônio cultural da humanidade como essencial para solidificar uma consciência capaz de explicar as origens da humanidade, sua trajetória histórica e a conclusão de que o socialismo é uma necessidade para a organização inteligente da vida. Não é uma sociedade que se constrói com o sentimento de vingança. Por isso, a arte de Van Gogh é parte desta caminhada em direção a relações humanas sem qualquer forma de opressão ou embrutecimento, livres da propriedade privada. Já foi dito que a cultura é a ecologia do chamam de alma, assim como que "Nem só de política vive o homem". Este texto de J. Posadas permite entender a identidade entre os artistas e os revolucionários, assim como a função da arte como instrumento indispensável para o progresso e o embelezamento da vida e das relações humanas. |

As figuras dos quadros de Van Gogh, as árvores, os movimentos
das árvores, o efeito do movimento do vento, da luz, do sol,
foram feitos com imenso amor. Tudo é feito com muito carinho à
humanidade, à terra, a natureza. E ele, se propor, desenvolve
uma unidade entre estes elementos. Foi o enorme sentimento de
amor humano, que levou a fazer tudo isso. Nenhum dos críticos
analisa assim. Tomam Van Gogh como louco.
Mesmo os traços fortes que aparecem em algumas árvores, as
figuras que são formadas nos ramos pelo vento, não são
movimentos que dão impressão tétrica, são apenas movimentos
de tristeza. A impressão que dá, principalmente quando Van Gogh
utiliza e combina constantemente o amarelo, é que deseja
transmitir claridade mas deixa a impressão de que a vida é
triste. No entanto, não transmite tristeza para as pessoas, as
eleva com o conjunto do quadro. Isto é, o autor comunica a
tristeza porque ela está presente em sua vida, porém é o amor
humano o que sobressai em seu quadro, por cima do aspecto triste
dos movimentos e combinações de cores. E toda a combinação de
cores mesmo aparecendo certa tristeza, expressa alegria, clareza;
e ainda que não seja a alegria que impulsiona a agir, é a
alegria que impulsiona a agir, é a alegria otimista de ver e
amar a natureza.
A representação dos sentimentos humanos
Van Gogh tem formas, modulações de movimentos que não são
normais, mas que existem, nas pessoas, na planta, na flor, no
efeito do vento sobre as árvores; tem efeitos de movimentos, que
só se pode fazer quando se tem um profundo amor humano, e se
pinta a natureza pensando nos seres humanos. Por isso quando ele
pinta os operários trabalhando, sua figura é uma parte da
produção, da árvore, da flor, do fruto. Van Gogh não expressa
na arte uma condenação ao sistema capitalista, ou à
exploração, ele realmente vê o amor desta forma.
Posteriormente vieram pintores que utilizaram estas figuras para
condenar. Mas Van Gogh não pinta para condenar, ele pinta: esta
é a realidade, e pronto, é a sua forma de condenar. É o caso
da pintura do par de sapatos, que parecem reais e dão a
impressão de que estão dizendo: "que cansaço". Os
sapatos têm uma expressão de cansaço, que representa o
casanço das massas. Tem quadros de batatas que falam, quando se
olha dá a impressão de que estão falando: "as pessoas
pobres comem isto". E nesta época, havia pintores que
faziam quadros das pessoas da burguesia. E mesmo quando Van Gogh
pintou os cafés de Paris, fez uma combinação de cores muito
linda, era a luz que ele tinha dentro de si e queria ver e
transmitir.
O quadro "Comedores de batatas" são uma denúncia,
não são para retratar a natureza. Para isso, utilizava as
flores; neste quadro trata-se de uma denúncia à sociedade. Mas
não o faz apenas como denúncia, e sim porque sente-se a traído
pelas pessoas pobres. Inclusive pinta os velhinhos, mas não
decrépitos, pinta-os como um resultado da brutalidade da vida.
Não coloca o ancião decrépito. Goya, por exemplo, pinta uns
reis velhos e decrépitos, e ninguém protestou, porque é a
verdade.
O que mais se destaca em Van Gogh, é a combinação de cores, de
figuras, de forma, de movimentos que ele faz, que reflete um amor
muito profundo pela natureza e pelas massas. Pinta detalhes do
campo, das plantações, da colheita, e é o detalhe de quem ama
isso . Ele não é o pintor que se coloca por cima, este é um
pintor a mais. Van Gogh sentia dentro de si tudo o que pintava.
Na árvore retorcida se vê Van Gogh, também no amarelo
candente, porque o seu objetivo era este (transmitir tais
sentimentos N. de R.). Expressava um pouco de sentimento
religioso, porque era a sua origem, mas o que determinava era o
amor à humanidade. Por isso a burguesia em sua época deixou-o
jogado num canto. Agora isso mudou.
No futuro a concepção da arte, vai modificar-se. A arte surge
de uma sociedade dividida, desigual, explorada, onde a
inteligência encontra-se oprimida, sequestrada, e antes ela
expressava mais pureza, porque surgia como uma necessidade de
representação do ser humano frente a vida, quando ainda não
existia toda essa opressão, então era mais pura. No futuro a
arte vai expressar-se, na forma, como a dos primitivos, sem a
necessidade da comunicação do primitivo. Ã arte é uma
continuação que se centraliza na natureza, mas é uma criação
humana, não da natureza. O ser humano é uma criação da
natureza, mas a arte é uma criação do ser humano.
As cores utilizadas por Van Gogh não dão uma impressão
tétrica, são cores muito sombrias que mostram o aspecto da
miséria, da pobreza ou do abandono, de falta de meios, e de
gente que vive interessada no que está fazendo. E mostra a falta
de meios dessa gente.
Van Gogh viveu em plena época do ascenso capitalista, do poder
colonial capitalista e suas pinturas não têm nada a ver com
isto.
Ou seja, a arte se choca com o poder. As cores brilhantes, a sua
combinação, dão uma sensação de harmonia que tem todo um
efeito de atração agradável, não é uma cor que repele. A cor
representava o sentimento das pessoas, da mãe, do filho, da
relação humana das massas. E não o sentimento de poder a
força, ela, ao contrário, inspira-se em sentimentos nobres, se
não for assim, não existe arte. Aqueles que fazem outra coisa,
não fazem arte. Pintam bem para uma pessoa, destacam bem a luz,
mas não conseguem nenhum efeito humano, ou seja, mostrar que
relação existe entre a humanidade e a pintura.
No quadro da colheita do trigo, este representa o trabalho do ser
humano, é uma continuação do ser humano, das relações
humanas. Por isso suas cores se destacam, não é uma cor
vibrante, é a cor humana, que tem relação com a humanidade, o
trigo é uma continuação do trabalho humano.
Os quadros das batatas mostram como Van Gogh vivia a tragédia do
povo holandês, pintava a comida do povo, era sua forma de
protestar. Unia a batata à vida das massas, a sua pobreza, e
procurava motivos (para a pintura N. de R.) inspirados na
vida das pessoas, o que era um protesto e uma crítica à
sociedade. Ele pinta a comida do povo e não dos ricos, nem da
burguesia e nem dos reis; pinta batatas.
A crítica social através da arte
No quadro das botas , por exemplo, Van Gogh mostra-as como
produto do trabalho e da vida humana, não pinta o esplendor do
capitalismo que estava em pleno ascenso, fazendo a Torre Eiffell,
conquistando a África e parte da Ásia. E ele pinta botas que
mostram o trabalho humano. Em troca, os impressionistas eram
muito atraídos por temas burgueses, quase todos seus temas eram
burgueses. Mesmo sendo bons pintores, eram atraídos por temas
burgueses, Van Gogh não. Por isso ele rompeu com os
impressionistas.
As paisagens de Van Gogh mostram que havia nele um sentimento de
solidão muito grande, mas ao mesmo tempo um sentimento de amor
humano também muito grande. A solidão não o levava a opor-se
à humanidade, a viver isoladamente ou servindo ao poder, era
resultado de um problema psíquico que ele resolvia fazendo
pinturas e unindo-se à natureza, porque ele se une mais à
natureza do que aos seres humanos. Mas quando pinta pessoas,
pinta o povo pobre, que produz, que trabalha, em contato com a
natureza, pinta os instrumentos da vida, como o sapato, e não o
dinheiro, o patrão ou a barriga do patrão. Pinta o sapato como
um instrumento da vida, que pertence, ao operário que produz.
A arte no século passado, não podia render muito mais do que
rendeu, era muito mais do que rendeu, era uma expressão
individual, não podia criar um desenvolvimento coletivo, porque
se tratava da propriedade privada. Mas no socialismo sim, se pode
desenvolver no pintor a mesma concepção do sistema privado, e
ainda que faça boas obras, desenvolve a concepção privada. A
arte surgiu como uma medida de construção do ser humano, que é
capaz de construir de forma superior que a própria natureza e as
relações sociais portanto mostra que é capaz de construir
muito mais do que as simples relações sociais podem ou permitem
fazer. Isto vai elevar-se muito, mas não com o mesmo significado
de agora, porque amanhã a arte deixará de ser uma obra para um
sujeito, para umas tantas pessoas, e será para a sociedade.