As eleições e o processo contraditório do governo transitório de Kostunica na Iugoslávia

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A eleição de Kostunica ao governo responde ao processo já iniciado com a guerra de desagregação da ex-Iugoslávia, a guerra da Otan no Kosovo, sustentato pelas burguesias européias e americana. A diferença é que agora agitam a bandeira da "revolução democrática" ao invés da "guerra humanitária" de antes, mas a intenção é de continuar a liquidar com o que resta da sobrevivente estrutura econômica e social do Estado operário. Isto não significa que vão conseguir, nem que tenham a homogeneidade (como se expressou nos desacordos internos entre os grandes da Europa na reunião de Nice), mas este é o seu objetivo.


É preciso inserir os acontecimentos na Iugoslávia dentro de um contexto mundial de permanente preparação de guerra do imperialismo contra as massas do mundo, como provam as recentes declarações ameaçadoras e bélicas de assesores de Bush, e também as ações contra as massas palestinas e contra todos os Estados que mantém estruturas e forças organizativas que podem conduzir a novos processos de construção de sociedades tipo socialista. Não somente os Estados que mantém ainda os alicerces da organização socialista, como Cuba, China, Vietnam, Corea do Norte, mas também todos aqueles nos quais o capitalismo tenta impor-se com formas bárbaras e primitivas como na Russia e nos países do leste da Europa, comprando burocratas , alimentando máfias, instigando o separatismo como o da Chechênia ou mercenários tipo UCK no Kosovo, injetando armas, dólares, acudindo com "socorros" do FMI e do Banco Mundial.


A Otan ativou seus representantes internos na Iugoslávia, como o DOS (Oposição Democrática Servia), como Zoran Djindic, anti-comunista ferrenho, braço direito da burguesia alemã e norte-americana, bem como Djiuganovic de Montenegro, para, nessa segunda fase, após 3 meses de bombardeio iniciado em março de 1999 no qual massacraram a população com mísseis, envenenamentos, destruição de casas, escolas, fábricas, pontes, continuar derrubando com a violência da "legalidade parlamentar", o governo de Milosevic. A tal da "revolução pacífica", como denominou a mídia para qualificar a eleição iugoslava, contou com algumas manifestações diante do parlamento, prévias à queda de Milosevic, de grupetos pequeno-burgueses em assalto ao Parlamento, que tentaram dar-lhe fogo, como fizeram com a TV do Estado, de ativistas e paramilitares de Vilmir Illic, prefeito de Caçak, a tropa de choque do DOS. "Pacificamente" desapareceram com milhares de cédulas impedindo qualquer recontagem dos votos. Ao contrário de todos os gritos da imprensa capitalista, nem todas as faculdades de Belgrado entraram em greve, nem houve a anunciada greve geral contra Milosevic, ou a adesão da maioria dos mineiros. Ao contrário, estes se enfureceram com as câmeras da CNN e da BBC por terem deturpado a verdade. Diziam: "não estamos nem em prol de Kostunica, nem contra Milosevic, mas pela pobre Sérvia que sofreu tantas desgraças". Os que falam de "revolução pacífica" ignoram alguns fatos como a repressão desencadeada contra a vanguarda operária e sindical da fábrica Zastava, símbolo de resistência e atração da solidariedade internacional pela destruição sofrida sob o bombardeio da Otan; ignoram também que as eleições municipais no Kosovo não podem ser consideradas democráticas, quando os eleitores sérvios se reduziram ao nada, fugindo do massacre feito por mercenários da UCK, sob olhares das tropas de ocupação da ONU/Otan. A democracia da contagem dos votos em eleições feitas sob o martírio de uma guerra não é a que determina, mas a do direito à vida, à paz, a convivência entre povos e etnias, sérvios e albaneses que, malgrado muitas limitações burocráticas, existiu nessa terra desde Tito e que começou a desaparecer quando o direito ao mercado tornou-se imperioso. Afinal, venceu o partido de Ibrahim Rugova, o moderado, que agora é a favor da independência do Kosovo e, ao mesmo tempo atacado ferozmente pelo UCK que mantém grande parte das suas forças logísticas com o apoio do imperialismo.




Evidentemente, nesse processo houve um acordo, um recuo de Milosevic, na qual intervieram também os russos tratando de impedir que a situação ficasse sob o pleno controle do imperialismo norte-americano. O acordo em torno de Kostunica responde também a uma concessão às burguesias européias, buscando aproveitar-se da concorrência que as mesmas têm com os ianques. Eis a razão das cínicas promessas de investimentos de governos ditos "social-democráticos" da CEE a Kostunica; os mesmos que ativaram em 1999 suas bases Otan para apoiar um bombardeio criminoso de 78 dias contra o povo iugoslavo; e que hoje se abstêm passivamente diante de uma resolução da ONU de condenação à agressão de Israel contra os palestinos. Adulado pelos governos europeus no pós-eleições, a recente visita de Kostunica a Itália passou em brancas nuvens, talvez porque em sua entrevista dizia que a Iugoslávia não seguirá os mesmos rumos da Rumania, da Bulgária e da Hungria e que não privatizará o Banco central como os russos. Kostunica, mesmo sendo membro do G17 e europeu , é um nacionalista e opõe-se à desintegração da Iugoslávia, pois de toda forma deve responder ao um eleitorado anti-Otan, negando-se a entregar Milosevic ao Tribunal de Haia.


Kostunica, é um elemento transitório de equilíbrio para a burguesia, e que ao mesmo tempo tem que prestar contas do seu discurso às massas, que não reagiram diferentemente por falta de uma direção revolucionária alternativa. O próprio exército, é uma força que de toda forma pertence à estrutura do Estado operário, da qual depende a manutenção e a integridade do Estado e das suas fronteiras; e nesta situação de instabilidade, Kostunica não poderá promover facilmente mudanças nos seus comandos e estrutura sem que haja um enfrentamento. A reação do exército diante das manifestações, mesmo de diálogo em algumas mobilizações mineiras, demonstra a diferença de comportamento dos exércitos capitalistas, como hoje dos soldados israelenses contra os palestinos. Este governo terá de prestar contas ao parlamento onde o Partido socialista de Milosevic, e a Liga Yugoslavia (socialista) têm maioria e estão pressionando; contas às massas, como aos mineiros de Trepka na região de Kosovo que meses atrás, fizeram greves contra a privatização das minas. O que é claro é que Kostunica não poderá responder à necessidade de reconstrução econômico e social da Iugoslávia com a ajuda capitalista, que não tem nenhum interesse no seu desenvolvimento. Houve algum plano Marshal com outro nome, plano FMI que serviu ao desenvolvimento da Russia, pós Gorbachev? O que houve foi, ao contrário, uma "transferência" dos processos produtivos capitalistas nos países balcânicos para explorar a mão de obra barata e sem vínculos, como no Brasil, empurrando a Rumânia, a Bulgária ou a Albânia para a plena miséria social e moral, utilizando as suas forças mais reacionárias.


Kostunica é parte integrante do programa de privatizações da globalização capitalista, mas ao modo servio. Isto é, tem a ilusão de entrar com a cabeça erguida e "fraternalmente" no sistema econômico europeu como Estado iugoslavo de economia mista, e com uma política exterior nacionalista em defesa da "integridade" territorial da Federação. Provavelmente tem a ilusão de "jogar" em base aos "pecados" da Otan e barganhar o acesso aos financiamentos e ter o privilégio dos investimentos exteriores controlados e condicionados pelo Estado iugoslavo. É uma ilusão, porque o capitalismo europeu e o norte-americano tratarão de moer os ossos do seu nacionalismo sérvio, com toda instigação separatista, não somente do Montenegro, mas também da Vijvodina, e com uma chama permanente no vale do Presevo, para obrigá-lo a uma submissão à Otan.


Poderá resultar disso, uma Sérvia isolada, sem acesso ao Mar Adriático e ao rio Danúbio, com um Kosovo que, tem uma força bruta de desestabilização não somente para os países balcânicos, mas para a própria Europa, incluindo a "sua" base americana que é uma das maiores da Europa; e com um Parlamento composto não por aqueles da área do pequeno partido do presidente, mas por ladrões de todo tipo que estão por trás destas mudanças. Na formação do atual parlamento iugoslavo, apesar de terem ganho os socialistas montenegrinos e Bulatovic, os obrigaram a substituir a delegação com representantes da ala liberal e privatizante do mesmo partido.


A estas alturas, se nas próximas eleições Kostunica vencer será de toda forma um Kostunica já submetido a boa parte do programa capitalista. Salvo se, neste processo, intervier com força a classe operária, a juventude - vítimas de toda a destruição provocada pela privatização capitalista, enganados por um processo muito veloz -, haja mudanças à esquerda no Partido Socialista, junto a uma intervenção do exército e da própria Rússia. É preciso recordar-se como o exército russo entrou decididamente ocupando o aeroporto de Pristina, rejeitando com toda fúria o general Clark. Os acordos de Putin e Kostunica têm sua importância porque demonstram a decisão russa de parar as mãos do imperialismo para que não o utilize completamente. Os acordos energéticos entre Rússia e Alemanha, a ruptura do embargo ao Iraque, junto com a França, são indícios de uma retomada de decisão da Rússia em intervir no processo, competindo com ao protagonismo ianque; e isso tem sua expressão mais elevada na viagem de Putin a Cuba.


Evidentemente em toda esta análise não se pode deixar de considerar a falta de direção revolucionária e comunista neste processo. Está claro que as massas da Iugoslávia têm muitos motivos de insatisfação e de críticas a Milosevic e aos partidos do governo. Se tivessem instrumentos adequados – uma direção revolucionária marxista – poderiam exercer uma crítica revolucionária e bloquear o ascenso de Kostunica-Dindjic, o processo de privatizações e resolver todas as questões colocadas pelos nacionalismos e separatismos, começando por propor uma reunificação socialista de toda a Iugoslávia e dos Estados Unidos Socialistas de todos os países Balcânicos, colocando de modo correto o problema da auto-determinação. Isso tiraria dos ultra-nacionalistas albaneses e sérvios todos os argumentos que no fundo não são mais do que a utilização das questões étnicas e particulares para fins de saqueio e da privatização das riquezas criadas coletivamente pelo Estado operário iugoslavo. Mas tal direção não existe e é prioritário construí-la, sem se esquecer que malgrado a Iugoslávia tenha sido um dos mais avançados na abertura capitalista, é aquela que mais resistiu, porque diferentemente daqueles do Pacto de Varsóvia, teve o mais amplo movimento guerrilheiro, sob Tito, e uma juventude que construiu ferrovias com as próprias mãos em momentos de maior dificuldade, como analisava J. Posadas.


Os acontecimentos na Iugoslávia chamam a toda a vanguarda revolucionária do mundo a discutir a necessidade de estabelecer uma grande Frente Única mundial, através de encontros, debates e manifestações contra a ingerência globalizante do FMI e do Banco Mundial na economia e nas politicas em todos os países, e contra todas as suas ações de guerra e de barbárie contra a humanidade. É preciso discutir tudo isso dirigindo-se às massas iugoslavas, como ao povo albanês do Kosovo que foi enganado por uma falsa intervenção "humanitária", para mostrar-lhes que não há progresso se não há a retomada da experiencia socialista da Iugoslávia, mas mais avançada e elevada que a anterior. Albaneses, macedônios, sérvios e iugoslavos de toda etnia, língua ou cultura, unidos para a reconstrução, para o bem comum. Abaixo a Otan, fora as tropas de ocupação, mobilização de todos os trabalhadores, mineiros e estudantes pela reconstrução da Iugoslávia socialista. (17.12.2000)

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